domingo, 16 de julho de 2017

A MARIA ANTONIETA DAS ARAUCARIAS



Nem assaz alhures e antanho
era um evento tamanho
a sagração nupcial”
Edu Lobo e Chico Buarque,
O Grande Circo Místico

Não houve assunto na “Capital Ecológica” que não fosse o grande espetáculo que foi o casamento de Maria Victoria Borguetti Barros. A Maria Antonieta das araucárias. A moça, herdeira presuntiva (?) do clã dos Barros, queria se casar. E então a princesa escolheu (sonho de noiva!) a Igreja do Rosário, bem no centro de Curitiba. Para a Festa de suas bodas, a jovem deputada pelo PP escolheu, naturalmente, a Sociedade Garibaldi, que fica logo ali, logo ali do ladinho, como diríamos em Antonina. E deu no que deu.
As coisas não cheiravam bem desde a semana passada, quando foi mostrada pela imprensa a bizarra estrutura da festa no Palácio Garibaldi.  Tudo indicava que um grande evento sem-noção estava para acontecer. A ocupação de bens tombados, a ostentação da Festa de Maria Victoria, os preparativos na Igreja do Rosário, tudo indicava um cenário perfeito para uma manifestação.
Segundo o Blog do Esmael, a ovação foi pensada dentro do próprio palácio do governo estadual. Certamente por pessoas contrárias à pré-candidatura de Cida Borguetti, a mãe da noiva, ao governo do estado.  A própria direita xucra do MBL não via com bons olhos a ostentação, embora apoiem Temer e outros canalhas, como Beto Richa. Foram, entretanto, os movimentos de esquerda que foram à frente da Igreja distribuir ovos e enfrentar a polícia. Ponto pra nós.   
As cenas de confronto e as ovações foram amplamente divulgadas pelas redes, não é preciso repeti-las aqui. Outros já falaram da ostentação, do momento, da falta de sensibilidade (ver aqui). O que me incomoda é outra coisa.
copiei daqui
Quando esteve na Província do Paraná, em 1880, D. Pedro II soube, por um político local, que o Dr Jesuíno Marcondes (1927-1903) estava fazendo falcatruas com compra e vendas de terras, fraudando o Tesouro Imperial. O imperador ficou furioso, e anotou em seu diário: “outra vez! ”. Nada aconteceu. Jesuíno Marcondes foi por diversas vezes Presidente da Província. Era inclusive o presidente em exercício quando veio a República, que o fez exilar-se belamente em Genebra, onde morreu.
Silvio Barros, o pai de Maria Victoria e Ministro Golpista da Saúde, deu declarações à imprensa dizendo que “tudo ocorreu como deveria” (ver aqui). A própria noiva teria dito aos jornais que isso era o “preço da democracia”. Ou seja, eles tinham plena certeza do confronto e o programaram, como se fosse uma propaganda política. Eles vão ficar expostos, todo mundo vai falar deles, a casamento vai virar “trend topic” nas redes e tudo bem. Eles saem ganhando com a exposição.
É este o cerne da questão. Enquanto os políticos da “Revolução Corrupta” estão ocupando espaços e alterando radicalmente as leis e a política, o que fazemos? Quais as metas? Estamos nas cordas, tentando defender Lula, tentando defender o PT. Mas, o que nós dizemos para a população que está perdendo seus direitos e está vendo essa barafunda toda?

De que adianta falar do simbólico, dizer que a igreja do Rosário era uma igreja da “irmandade dos homens pretos”? Maria Victoria quer se casar lá porque a igreja é bonitinha. Se tiver problemas de condução, ela pega um camburão. Se não der pra ir, ela chama a polícia. Pior, a polícia vai quando ela chama!
O poder no Paraná (e no Brasil, por suposto) está nas mãos desta canalha. Uma canalha que dorme bem de noite.

Quem precisa de desprincesamento somos nós.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O LADRÃO DE ANTONINA


Pobre país! A corrupção alimenta a vaidade, para dar vida ao patriotismo!” – é a legenda da charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867 (copiei daqui).
Hoje vivemos tempos muito turbulentos. Em nome do combate a corrupção, diversas ações têm sido realizadas. Recentemente, na nossa bela Deitada-a-beira-do-mar, tivemos uma prisão importante, de uma pessoa bastante poderosa. Por outro lado, inúmeras prisões são realizadas num espetáculo de mídia, como se o mais importante fosse a encenação e não o principal. Quando a pessoa presa é liberada, por problemas da acusação, seja por insuficiência na acusação, seja por falta de provas, a grita é enorme.
Não é possível condenar por convicção, como já dissemos. Por outro lado, em outros processos provas arrasadoras são mostradas e não provocam nem ação de polícia nem indignação das pessoas. Estes são os tristes tempos em que vivemos. Como era, no passado, o combate à corrupção? Como casos de roubo do bem público eram tratados no Paraná e em Antonina no passado?
Esta é a história de Luiz Tibireçá da Silva Dória, que foi nomeado em 21 de abril de 1854 como coletor interino das rendas provinciais da Villa de Antonina (ver aqui). Era um cargo importante: Luiz Tibireçá deveria recolher os impostos devidos e, no momento certo, fazer também os pagamentos aos funcionários públicos e demais despesas do governo.
Trata-se de um cargo vital para a arrecadação de impostos do governo. O tal do coletor, por isso mesmo, é uma pessoa importante socialmente nas cidades onde havia a tal da coletoria, e assim o foi durante muito tempo. Era ele que literalmente coletava os impostos e fazia os devidos pagamentos do governo. Pra se ter uma ideia, no Paraná, os pagamentos e o recebimento de impostos só foram separados, da maneira como temos hoje, no início dos anos 1960, no governo Ney Braga.
Não sabemos, em função dos poucos documentos que temos, quem era Luiz Tibireçá, onde nasceu ou qual era sua família. Entretanto, parece, pelos seus atos subsequentes tratar-se de uma pessoa de uma família bem situada socialmente, tanto é que foi nomeado coletor. Na época de sua nomeação, Luiz Tibireçá devia ser bem jovem e inconsequente, como mostraram seus atos. Era o início das atividades da nova província do Paraná.
Pouco antes, em dezembro de 1853, a antiga 5ª Comarca de São Paulo desmembrava-se e surgia a Província do Paraná. Quando o Baiano Zacarias de Gois e Vasconcellos, destacada figura da política imperial, subiu a serra para instalar Curitiba como capital da nova província, tudo estava sendo iniciado. O Conselheiro Zacarias demorou-se ali por pouco tempo, onde organizou minimamente os cargos e funções da nova província. Construir estradas, arrumar os portos, fazer as instituições funcionarem, foi esta sua tarefa. Assim, numa de suas penadas, Luiz Tibireçá foi nomeado coletor e também o agente dos correios na graciosa Villa de Antonina (ver aqui).
Num comunicado de janeiro de 1855, sabemos que ele era também o agente interino dos correios. O engenheiro Villalva, que iniciava os trabalhos de calçamento da Estrada da Graciosa, foi incumbido de entregar a Luiz Tibireçá duas mulas e uma cangalha, para transporte do correio entre Curitiba e Antonina (ver aqui).
Foi quando tudo entornou. A demissão de Luiz Tibireçá ocorreu em 29 de abril de 1855, pouco mais de um ano após sua nomeação (aqui). Pouco antes disso, nosso jovem coletor havia se apropriado de tudo o que tinha conseguido arrecadar dos impostos devidos a província e, como se dizia naquela época, tinha-se escafedido. Arre, que biltre!
Em matéria no jornal “O Dezenove de Dezembro” de 25 de abril de 1855, consta que Luiz Tibireçá, de posse dos impostos surrupiados da coletoria provincial, estava fugindo para o Rio da Prata (aqui). Era o caminho natural dos que faziam malfeitos, principalmente os pecuniários. Nos jornais e nas conversas, todos o davam como vivendo bem e feliz, seja em Montevidéu, seja em Buenos Aires.   À tripa forra, como se dizia na época.
No entanto, nosso meliante não havia ido assim tão longe. Dedicado a gastar o dinheiro em tão má hora adquirido, pôs-se a gastar em farras e divertimentos bem próximo de Antonina. Mais precisamente na Villa de Desterro, Capital da província de Santa Catarina.
E foi ali, na Ilha da Magia, que Luiz Tibireçá foi finalmente preso. Conduzido preso a Paranaguá e posteriormente à Curitiba, o sacripantas foi devidamente inquirido pelo doutor delegado sobre o dinheiro que havia se apropriado. Qual não foi a surpresa do nobre policial ao verificar que Luiz Tibireçá havia gasto “em dissipações, jogos, passeios e divertimentos” tudo o que havia roubado em Antonina (ver aqui). Nada, nem um mísero mil-réis havia sobrado! Ali mesmo Luiz Tibireçá foi incurso em diversos itens do código criminal, e remetido a julgamento em Paranaguá.
Para os que acreditam ser a justiça brasileira desde sempre muito morosa, aqui vai um espanto: seis meses depois, em 4 de janeiro de 1856 já estava concluído o processo de Luiz Tibireçá. Não conseguimos saber qual foi sua pena, em face dos documentos analisados. Sabemos, entretanto, que o larápio passou seus dias de apenado na cadeia de Paranaguá. Ali, em fevereiro de 1858, Luiz Tibiriçá faz um pedido para que sua mulher, Adelaide Ferreira da Silva Doria, pudesse permanecer com ele na cadeia. O pedido foi indeferido (ver aqui).  
Entretanto, nem tudo são espinhos na vida de nosso ex-coletor. Em fevereiro de 1863, ou seja, cerca de cinco anos depois, ele está vivendo muito provavelmente na bela Ponta Grossa, a Princesa dos Campos. Neste período, sabemos pelos jornais que Luiz Tibireçá é o 1º secretário da prestigiosa “Sociedade Patriótica Defensora da Nação” (ver aqui).  Nesta Sociedade, com outros cidadãos ilustres, ele assina um manifesto contra agentes britânicos, que faziam “represálias injustas” contra navios brasileiros ao longo de nossa costa. Logo ele!
Sabemos que fez sua carreira como advogado. Numa de suas lutas no tribunal, em janeiro de 1864, Luiz Tibireçá perdeu um caso. Como membro do Ministério Público de Ponta Grossa, ele não conseguiu a condenação de Maria Cecilia, acusada de furto (ver aqui). No entanto isto pouco valia. Tanto a defesa quanto a acusação fizeram, segundo a notícia do jornal, um debate que beirou o “sublime”.  Já em março de 1865, quando os bravos Voluntários da Pátria passam por Ponta Grossa indo juntar-se aos que já lutavam contra Solano Lopez, Luiz Tibireçá é um dos inflamados oradores (ver aqui). Em 1867, o escrivão Joaquim José de Camargo passa um certidão de bons antecedentes a nosso bom Luiz Tibireçá (ver aqui).
Nada mais sabemos deste interessante personagem. Vemos entretanto que ele conseguiu dar a volta por cima e ser um cidadão de bem e querido na nova comunidade que adotou. No entanto, parece importante reparar na pena relativamente branda para um homem branco e rico. E se ele fosse preto e pobre? Quanto tempo ficaria preso? Poderia pedir para que sua esposa ficasse com ele na cadeia?
A história de Luiz Tibireçá nos mostra, por outro lado, que pouco mudamos neste país. Continuamos a prender os pobres e a soltar os ricos. Nosso contingente de presidiários fala por si. Mesmo quando lidamos com causas como a corrupção política, pouco muda. Um presidente operário vale menos que um presidente advogado, mesmo que as provas contra um sejam duvidosas e contra o outro sejam materiais e comprovadas.
Luiz Tibireçá errou de século. Hoje, quem sabe, ele não pegaria uma prisão domiciliar? Ou nem isso?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

LAVAJATUS


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

Entre todos os fósseis estudados no período Triássico, os répteis do grupo Lavajatus foram uma de suas espécies mais características. Foram especialmente dominantes entre o Triássico inferior (Andar Bumlaiano), quando tiveram rápida radiação (Janot, 2015). Depois de um período onde foram os predadores mais importantes (Moro et al., 2016), acabaram por se extinguir no final do Triássico superior (Andar Joesleyano).
O gênero federalicus foi um dos gêneros mais importantes do Triássico inferior. Tratam-se, provavelmente, de saurídeos pequenos e muito velozes, que andavam em bandos, atacando preferencialmente de manhã bem cedo (Silva et al., atas do Congresso de Paleontologia Imaginária de Curitiba, 2016). No entanto, apesar de seus hábitos matinais, paradoxalmente, estes saurídeos tinham problemas de visão, já que foram registrados muitos espécimes usando óculos de proteção, em especial de cor escura. Muitos espécimes especialmente bem preservados foram desenterrados em diversos sítios paleontológicos imaginários (Silva, op.cit.).
Alguns destes espécimes do gênero federalicus foram objeto de muita especulação nos meios científicos, como o federalicus lenhadoris e, principalmente, o federalicus niponicus. No entanto, estes espécimes eram periféricos, e logo desapareceram no registro paleontológico. Os mais importantes, na escala evolutiva eram os saurídeos do gênero ministeriopublicus.
Entre os espécimes do gênero ministeriopublicus, era bastante ruidoso o M.  dallagnolicus. Este espécime era especialmente perigoso porque matava suas vítimas com mordidas sépticas e com apresentações mortíferas de powerpoint (Zavascky, 2015). Quando atacava suas presas nas planícies deltaicas do Triássico médio, o dallagnolicus não tinha provas, mas tinha muita convicção.
Os métodos de caça dos ministeriopublicus eram geralmente derrubar as presas e arrasta-las para cavernas especialmente selecionadas. Uma vez lá dentro, os ministeriopublicus faziam-nas delatar umas às outras. Outra forma de caça eram os vazamentos seletivos (Moro, 2016), quando inundavam uma área selecionada no lado esquerdo dos vales para caçar os animais pegos de surpresa em armadilhas. Os animais do lado direito, durante o Triássico inferior, escapavam com facilidade destas armadilhas (Neves & Mendes, 2015).
Os saurídeos do grupo lavajatus irradiaram-se bastante durante o Triássico médio, especialmente dispersos no território sul-americano. São encontrados sítios com ocorrências de ossadas quase intactas destes animais ao longo de quase todo o território brasileiro, embora espécies possam ter sido encontradas também em jazimentos no Equador, Colômbia e Peru (Santos & Toledo; Atas do Congresso de Paleontologia imaginária das Ilhas Cayman, 2012).
Nos sítios paleontológicos fósseis do Brasil existem muitas controvérsias sobre ocorrências de saurídeos do gênero ptistus nos sítios paleontológicos de Atibaia e no Guarujá (OAS, 2013). No entanto, sobram evidencias de saurídeos do gênero tucanossauros em diversos pontos de Minas Gerais e de São Paulo (M. Odebrecht, comunicação pessoal). Escavações no metrô paulistano revelaram, ao menos parcialmente, alguns esconderijos fósseis ainda não suficientemente investigados (ALSTOM, 2012).
O ministériopublicus, com auxílio dos federalicus, predavam seletivamente os sáurios do gênero ptistus, que quase foram extintos ao final do período Carniano (Andar Pallociano). No entanto, na medida em que se achavam mais poderosos e dominando todo o ambiente, no período Ladiniano, os saurídeos da lavajatus se aproximavam dos dinossauros maiores e mais ferozes, tentando domina-los, o que acarretou sua extinção (Jucá, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginária das Bahamas, 2016).
Existem evidências que os saurídeos do grupo lavajatus foram extintos no final do triássico. Os grandes dinossauros do gênero pmdbistus, acuados pelos federalicus e pelo ministeriopublicus finalmente reagiram (Jucá, op. cit.). Algumas espécies de federalicus foram privadas de recursos ambientais e se extinguiram já no período Temeriano. Os saurídeos do gênero tucanossaurus encontravam uma saída ambiental sofisticada através do mecanismo dos Sifões Transientes Facilitadores (STF), ficando facilmente fora do acesso dos animais do grupo lavajatus e continuaram se multiplicando (Mendes & Neves, 2016; Neves & Mendes, 2017; Fachin & Mello, 2017). O ministeriopublicus, também sofrendo em condições adversas, acabou por se extinguir ao fim do Triássico (Andar Wesleyano).
No entanto, o consumo exagerado de pastagens mesozoicas por parte dos grandes sáurios dos gêneros pmdbistus e tucanossauros e outras espécimes menores começou a afetar a totalidade do ambiente. O consumo indiscriminado de capins do gênero propina sp acabou por inviabilizar toda a fauna da região (Batista & Odebrecht, 2017a, b). Existem evidências de extinções maciças de diversas espécies de saurópodes em todo o Gondwana Meridional no início do Jurássico (Maia, em preparação). Nesta área do planeta, durante o Mesozoico, essa fauna toda não precisava de meteoros ou de extensos episódios de vulcanismo para se extinguir.

Arte: Julian Fagotti

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ANTONINA E A CORRUPÇÃO



Que Antonina é fantástica, todos já sabem. Todo mundo que sentiu no rosto o vento do mar na colina da matriz ou quem já comeu bolinho de bacalhau no mercado sabe do que estou falando. Antonina, a Deitada-abeira-do-mar, a cidade e sua gente, tem um jeito diferente, que ri dos percalços da vida, que brinca e fala o malemolente linguajar dos bagrinhos, é um lugar especial, que cativa e encanta.
No entanto, na noite desse frio domingo de julho, soube que a cidade era a notícia do Fantástico, da rede globo (assim mesmo, em minúsculas). Faz anos que não vejo o Fantástico. Tem coisa melhor para fazer nas noites de domingo. Inclusive fazer nada. Ver esse programa sensacionalista e apelativo não é uma boa maneira de começar a semana. Por isso, não vi.
Mas sei do que estão falando. Qualquer um no Brasil sabe o que estamos falando. Aqui na região de Campinas, que tem cerca de 3,1 milhões de habitantes e concentra 8,5% do PIB paulista, o problema da corrupção é endêmico (aqui). Recentemente, em 2012, o prefeito de Limeira (300 mil habitantes) foi afastado do cargo por corrupção (aqui), mas voltou por decisão judicial. Na lista da Lava jato constam o ex-prefeito e o atual prefeito de Campinas (1 milhão e 200 mil habitantes), o ex-prefeito de Paulínia (80 mil habitantes) e Sumaré (260 mil habitantes). A corrupção está no nosso dia-a-dia, em nível municipal.
Se digitamos na busca do Google “prefeito corrupto” dá aproximadamente 495 mil entradas. “Corrupção prefeitura” dá 848 mil entradas e “prefeito afastado por improbidade administrativa” dá 293 mil entradas. O número de casos é grande, quase como uma epidemia.  
Como não saber da corrupção? No caso do indigitado ex-prefeito, já sabíamos antes da eleição (ver aqui). Briguei com grandes amigos meus por causa dele, o “grande apolítico” (aqui). Toda vez que vou à Antonina, alguém me conta de um causo. Quando a câmara tentou enquadra-lo, ele comprou a câmara. Todos sabiam. Por que o espanto agora?
Parece que todos sabem. E quem está “lá dentro” não tem pudor em ganhar o que não lhe é devido. Pessoas honestas e bem-intencionadas acabam “entrando no esquema” e saindo sujas como qualquer ladrão de galinha.
Não adianta fazer mea culpa, como vejo alguns fazendo. Não adianta chorar. Culpa quem tem é pecador. Criminoso é quem comete crime. A culpa pode ser resolvida num culto evangélico ou num confessionário. O crime é resolvido com a devolução do roubado e com uma pena a ser paga, dependendo do crime.
Alguns estão se deliciando com o outro apanhado com a boca na botija. Ou a boca no dinheiro. No entanto, não podemos nos comportar como se fôssemos incorruptíveis, ou como se isso não acontecesse conosco - ou com nossa família. Fechar os olhos para isso é um caminho para cairmos na armadilha. Devemos sim é pensar no quanto somos cúmplices com estes esquemas, quanto não deixamos – por ação ou omissão – nosso dinheiro e nossos direitos irem para o ralo.
A nível estadual, vocês no Paraná têm o Beto Richa, que dispensa apresentação. Aqui em São Paulo temos Alckmin e os 24 anos de PSDB e seus esquemas mal resolvidos e impunes. Ambos aliás eleitos no primeiro turno. A nível Nacional, estamos vendo que boa parte da população tolera um presidente notoriamente corrupto, mas que os livrou do “monstro petista”. Para não termos as “pedaladas” ou as pretensas bobagens que a presidenta Dilma falava, tolera-se a corrupção e as gafes internacionais de Fora Temer. No congresso e na justiça, a impunidade rola à solta, como se rissem de nós. Foi para isso que o pessoal com a camisa da seleção foi pra rua?
No caso da Deitada-a-beira-do-mar, mais do que virar um festival de piadas no Jequiti ou um Fla-Flu, devemos pensar melhor. Até que ponto nos deixamos levar por este estado de coisas, que nos levou a ser conivente e naturalizar a corrupção até chegar no ponto que chegamos?  
Até porque, na internet, estão batendo nos fracos, pra variar. O nosso conhecido assessor que beija dinheiro, nosso ex-vereador que chora, todos esses são arraia miúda, café pequeno. Bagrinho no pior sentido da palavra. O esquema maior, no entanto, continua na ativa e ditando as políticas da Terra de Valle Porto. Esse aí, quem se atreve a apontar?
(Como muitos devem notar, não estou há tempos escrevendo sobre Antonina e seu cotidiano aqui no blog. Os motivos são muitos. O principal é que, de longe, é mais difícil enxergar as folhas das arvores. Não se pode falar de longe, de onde estou. Por isso, não tenho mais comentado sobre fatos de cotidiano. Mas esse me pareceu importante demais.)

sábado, 24 de junho de 2017

EU NÃO AMO O BRASIL


legenda auto-explicativa (tirei daqui)
Eu não amo o Brasil. Por que deveria amá-lo?  
Houve uma época em que eu sinceramente acreditei no conto do Patriotismo. A época era outra. Eu também. Na escola cantávamos o Hino Nacional, sempre com medo de errar – afinal, era “amor eterno” ou “sonho intenso”? E aquele papo de “amor febril pelo Brasil? ”. Queriam por todo modo que fossemos todos febris e destemidos.
Além dos hinos, haviam os contos militares nos livros de história, contando anedotas como a da frase heroica de Caxias na ponte de Itororó, conclamando: “Quem for brasileiro que me siga!”.  Em todos os cantos havia o chamado a amar a Pátria, amar a bandeira, amar o hino. Por trás de tudo, na sala da Diretora, estava um general carrancudo numa foto.
Quantas vezes haviam concursos de redação com o tema patriotismo? Quantas bobagens não escrevemos contando que a cor de nossa bandeira eram os nossos recursos naturais (na verdade, o verde-amarelo eram as cores da Casa de Bragança!). Ou então dando exemplos históricos de patriotismo no Brasil, que recolhíamos em livros não muito rigorosos com a verdade histórica.
O patriotismo do tempo da Ditadura, no entanto, acabou-se que era doce quando a classe média não tinha mais como comprar fuscas ou passear em Buenos Aires e tomar uma cueca-cuela. A popularidade do governo militar e seus tecnocratas despencava na medida em que a economia vacilava. Entretanto, eu ainda não entendia aquilo tudo. Venho de uma família muito nacionalista, tanto de direita quanto de esquerda. O nacionalismo era o que nos unia. Por vezes, mesmo já me considerando de esquerda, eu me espantava, quando era rapaz, com as pessoas que criticavam o patriotismo ou que criticavam o Brasil. E o Amor Febril?
Com o passar do tempo, aquelas historias militares e aquele verde-amarelismo tosco foram sendo substituídos por sentimentos diferentes. Entendi, no começo da juventude, lutando pelas Eleições Diretas para presidente (DIRETAS JÁ!), que eu não amava mais o Brasil varonil das canções militares, aquelas que nos diziam que devíamos viver pela Pátria e morrer sem razão.
Como posso amar esse pais que se pinta todo de verde-amarelo somente às vésperas de uma Copa do Mundo, com uma bandeirinha tímida na porta das casas? Como amar o pais que no passado tinha como lema que se devia ama-lo ou então ir embora – “Brasil ame-o ou deixe-o”?
Que amor é esse?
Hoje, eu entendo este amor diferente. Eu não amo o Brasil dos manuais de Patriotismo, aquele que diz que patriotismo é amar e respeitar os símbolos: bandeira, brasão, hino. O patriotismo brasileiro é sui-generis: você tem que amar uma pátria que não te representa? Que no passado escravizou nossos avós negros e índios? Como amar um pais hoje que não respeita os direitos dos cidadãos mais pobres? Que não garante liberdade, pão e terra para todos? Como falar que o brasileiro não tem patriotismo se a Pátria ela mesma não tem brasileirismo?
Como amar um país cindido em dois, um Brasil branco e rico e o outro, preto e pobre? Um país onde os trabalhadores mais humildes sofrem com a exploração de mão de obra, com falta de acesso ao estudo, sem perspectiva de melhorar sua vida?
Eu não amo o Brasil. Eu amo os brasileiros, aqueles que extraem algum sentido do lugar sem sentido onde vivem.
Por outro lado, não se ama um país com o qual não temos laço – de família, de história, de vida. O patriotismo tal como inventado lá atrás na Revolução Francesa tinha este sentido – proteger a nós e os nossos dos “feroces soldats” da tirania. Na Primeira Guerra Mundial, em nome deste tal patriotismo, milhões de pessoas morreram como bois no matadouro pela conquista de alguns metros de terreno, ou pela glória de algum general.
O nazismo e o fascismo também foram exemplos acabados de como fazer de pessoas honestas soldados ferozes e cruéis, as buchas de canhão do patriotismo. E assim, juntando os exemplos históricos que conhecemos, não há como não concordar com a famosa frase de Samuel Johnson (1709-1784): “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.
Portanto, eu não amo o Brasil. Não amo seus símbolos. Acho um absurdo ficar falando de patriotismo sem cidadania. Um pais que teve escravos e não tem políticas de ações afirmativas decentes é um pais a se amar? Devemos amar o Brasil como as pessoas que pregam intervenção militar dizem? Felizmente para nós, tem um problema: os militares não amam a Pátria, amam seus empregos...
Hoje, muitos outros usam o Patriotismo para ações de ódio e de xenofobia. Se escudam em noções e conceitos antiquados (e fascistas) para dizer não ao outro, ao estrangeiro. Houve até a piada-pronta de um grupo que protestou na Avenida Paulista contra a imigração (ver aqui). Como disse um humorista de plantão, “no Brasil somente os Índios tem este direito. E ali na passeata não se viu índio nenhum”.
Eu amo as pessoas que eu amo, e isso não tem país. Hoje, posso dizer que tenho amigos pelo mundo. Eu amo minha terra não porque ela é minha terra, mas porque ali estão minhas raízes, minha família, meus amigos. Tudo isso e mais uma paisagenzinha bonita, tipo uma tarde de verão na Feira-mar, em Antonina, e está feito o estrago...
Patriotismo não. Sentimento do mundo sim. Ao Brasil, eu prefiro os brasileiros.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

OS LANCEIROS NEGROS E A AGONIA DA DEMOCRACIA


O Deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), antes de ser preso pela Brigada Militar na desocupação violenta da Ocupação Lanceiros Negros, em Porto Alegre, nesta ultima quarta- feira.

Um dos sinais mais claros que as coisas estão mudando é a desfaçatez da violência. Como uma folha que amarelece de fora para dentro, a violência vem se instalando lentamente em nosso cotidiano. Como recentemente disse um artigo de Eliane Brum (ver aqui), é nas periferias do sistema que as pessoas primeiro se sentem à vontade para usar da violência sem nenhum receio ou pudor.
Uma evidência do final do mês de maio é o recente Massacre no Pará, quando nove homens e uma mulher foram mortos pela Polícia Militar em Pau D´Arco, a 867 km de Belém, quando resistiam a uma reintegração de posse (ver aqui). Os policiais chegaram a remover os corpos para evitar a perícia (ver aqui). Um mês antes, em abril, fazendeiros balearam índios da etnia Gamela do povoado de Bahias, em Viana (MA), tendo decepado a mão de um dos indígenas, Aldelir Ribeiro, de 37 anos (ver aqui). Essas chacinas covardes, uma delas perpetradas por supostos “Agentes da Lei”, entrou e saiu no noticiário como se se tratasse de um longínquo confronto no Afeganistão ou na Síria.
Esta semana, outro absurdo, desta vez em área urbana. A ocupação Lanceiros Negros, no centro de Porto Alegre, sofreu na noite desta ultima quarta-feira uma desocupação extremamente violenta, com uma ação excessiva da Brigada Militar. (Para quem não conhece o Rio Grande do Sul, Brigada Militar é o nome da PM no estado; o nome "Brigada" bem lembra a sua origem, como as demais PMs, como forças militares auxiliares ao Exército e à serviço das oligarquias estaduais.)
Na noite fria e chuvosa em Porto Alegre, véspera de feriado de Corpus Christi, usando bombas de efeito imoral, a Brigada Militar que realizava a desocupação chegou a prender o deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa Gaúcha. Três horas depois, quando os brigadianos se deram conta da bobagem que fizeram, o deputado foi liberado. As mulheres da ocupação presas junto com ele, no entanto, continuaram detidas.
Enquanto isso, a Brigada atirava pelas janelas sofás, objetos de cozinha e até travesseiros e roupas de cama, conforme denunciou a reportagem ao vivo dos Jornalistas Livres. Retiradas a força do prédio, as famílias desalojadas estão precariamente alojadas num ginásio de Porto Alegre, sem condições de higiene ou de cozinhar.
Aliás, boa parte das 70 famílias que desde 2015 ocupavam o prédio histórico abandonado no centro de Porto Alegre vieram de uma outra zona de risco, a saber, de risco de enchente. Na Ocupação Lanceiros Negros, os moradores fizeram um experimento de moradia baseado na auto-gestão. No interior do prédio, que pertencia ao Estado e estava desocupado há mais de 10 anos, as famílias limparam tudo e montaram uma biblioteca, estabeleceram regras de convivência, se integraram com dignidade e respeito à vida do bairro.
A reintegração de posse ocorreu dentro da legalidade, com estamos vendo no Brasil desde o golpe de 2016. A Juiza Aline de Santos Guaranha ordenou “o cumprimento da ordem aos feriados e finais de semana e fora do horário de expediente, se necessário, evitando o máximo possível o transtorno ao trânsito de veículos e funcionamento habitual da cidade”. Dane-se o transtorno causado aos ocupantes. O importante é não perturbar a paz dos “cidadãos de bem”.
Os “cidadãos de bem”, aliás, não se furtaram a inundar de ódio as páginas da internet, clamando pelo direito de propriedade e pregando punições aos “vagabundos” e “parasitas”. Como se o direito de propriedade não fosse extensivo aos ocupantes, que precisam atuar nas franjas da lei para ter um local para morar. Para os  "cidadãos de bem" este direito é garantido sem restrições pelo Estado. No entanto, a propriedade privada pura e simples não é uma garantia da “Constituição Cidadã” que os golpistas querem a todo custo rasgar. Ela está justamente subordinada à sua função social. Não se tem o direito ilimitado de propriedade, portanto, se ela não atende ao conjunto da sociedade (ver mais aqui). Num estado que não cumpre seu papel de facilitar acesso a moradia, a Ocupação Lanceiros Negros, que fez da invasão sua arma de luta está coberta de razão.
Como contraponto ao Sistema que os obriga a transitar nas franjas, o nome "Lanceiros Negros" é excelente. Os Lanceiros Negros foram um grupo de combate da Revolução Farroupilha (ver mais aqui). Formado por ex-escravos e negros libertos, foi uma das forças de combate mais terríveis do Exército Farrapo em suas batalhas contra o Exército Imperial. O próprio Garibaldi, em suas Memórias, cita que a bravura dos Lanceiros Negros não poucas vezes o inspirou em combate. Traídos pelos próprios comandantes Farrapos, os Lanceiros Negros foram entregues desarmados às forças Imperiais, que os massacraram ao final de 1844, no denominado Massacre de Porongos. Os Lanceiros em sua maioria foram mortos e seus sobreviventes foram reescravizados. Afinal, era extremamente incômodo para a elite branca um batalhão de soldados negros e livres num país que condenava os negros à escravidão. O fim dos Lanceiros Negros foi o último obstáculo à pacificação da Província, pondo fim à Revolução Farroupilha.
Chegamos aos Lanceiros Negros modernos. Sem garantia de função social da propriedade, confinados a zonas de riscos de enchentes, são brutalmente retirados numa noite fria e chuvosa pela ação desproporcional da Brigada Militar. Homens, mulheres e crianças, como os lanceiros traídos em Porongos, se retiram, numa fria madrugada de junho, para um abrigo provisório na periferia de Porto Alegre.
Não houve sequer respeito pelo deputado que, com a força de seu mandato, tentava evitar toda a confusão. Atacado com gás de pimenta, chutado, espancado e finalmente preso pela Brigada, como numa afronta aos seus eleitores. Diga-se de passagem que um dos momentos mais civilizados da Republica Romana foi quando se admitiu que a pessoa do Tribuno da Plebe, que defendia os interesses da massa do cidadão, era por isso mesmo inviolável. A Brigada Militar, em pleno século XXI rasga a lei que jura defender atacando (este sim!) um digno representante do povo para defender um vago direito à propriedade.
O Governador, esse pobre coitado, diz que está tudo certo com a Brigada, diz que eles cumpriram o seu papel. Mas, quem é responsável pela extrema violência, se os brigadianos não são mais do que um instrumento do Estado, se não ele? Este é o papel de um governador, afinal eleito pelo povo? Uma repórter governista veste a carapuça e escreve que “cumprir ordem de despejo em uma noite de inverno e algemar um deputado estadual foram equívocos” (ver aqui).  O Governo se defende e diz que a oposição fez isso para “angariar dividendos políticos e midiáticos”. Será que foi tudo combinado, como numa sessão sadomasô? Um bate e o outro apanha, é isso?
 A folha verde e viçosa da Democracia vai se amarelando. Pelas bordas, lentamente. Ora é um mendigo, um noiado de crack. Depois, são os sem-terra, os índios. Não nos importamos com isso, moram longe, são todos vagabundos e parasitas. A folha verde vai se amarelando, até cair. Na hora em que baterem na nossa porta para nos levarem, como fizeram com tantos outros nas ditaduras do passado recente, não haverá mais por quem chorar.

(Esta postagem é dedicada à minha amiga e companheira Maria José, que me apresentou ao mundo ao sul do rio Mampituba, que tanto gosto)

domingo, 11 de junho de 2017

A MORTE DE BATMAN

Adam West, em foto de 1999, sentado sobre o bat-móvel


Entre tantas perdas que tivemos recentemente, uma delas me bateu tanto que senti, depois de algum tempo, vontade de escrever algumas maltraçadas linhas. Trata-se da morte de Adam West, o icônico Batman do seriado dos anos 60.
Com a perda de West, senti que muito de meu passado está ficando irremediavelmente distante. As tardes em frente da velha – e grande -  TV preto e branco, vendo assustado as encrencas em que se metiam Batman e Robin, lutando contra inimigos não menos icônicos como o Charada, o Pinguim, o Coringa e a não menos temível – e por isso mesmo adorável - Mulher-gato são tardes cada vez mais distantes e apagadas na memória.
Adam West vestiu um Batman da contracultura, um Batman que vinha direto dos gibis, com muita meta-linguagem e com um cenário super-colorido e sua linguagem de socos onomatopaicos – os formidáveis Crash, Pow, Thud...
Era um Batman juvenil e alegre, bem distante daquele Batman introspectivo e sombrio que a série “Cavaleiro das Trevas” viria a impor a partir dos anos 80. Um Batman com falhas, um vingador obsessivo, um ser transtornado e perturbado.
Como não amar aquele imperturbável ricaço que descia por uma passagem secreta para seu esconderijo secreto para lutar contra o mal? Quem nunca quis ter uma segunda identidade e uma batcaverna para se esconder e trabalhar nas mais incríveis ferramentas? Usar o cinto de utilidades, tão kitsch quanto incrível, inventar poções borbulhantes em tubos de ensaio gigantes ou dirigir o bat-móvel ou o batplano pelas ruas e pelos céus de Gotham City?
Santa ingenuidade, Batman! Doce ingenuidade, Batman, embalada em frente da TV preto e branco da sala de estar...
Hoje em dia, em que vivemos nesta lamentável gangorra de emoções ruins e golpes baixos, temos juízes e procuradores que se travestem de Batman. Querem ser justiceiros, querem fazer a diferença como se justiceiros fossem, e não trabalhadores da justiça. Que fazem seu serviço como se dirigissem batmóveis e enfrentassem Coringas ou Charadas, quando o que na verdade enfrentam são os temers, os jucás, os renans, os aécios, bandidos mais espertos e muito mais barra-pesada.
E a justiça? Batman podia pegar seu bat-fone e ligar para o Comissário Gordon e tudo estava resolvido. Batman era um funcionário do Estado, agindo nos interstícios do poder do estado. Quando tudo parecia perdido, o home morcego havia sido capturado pelos vilões e estava para ser morto, aparecia a polícia de Gotham City – o herói estava salvo, e os bandidos estavam presos.
Quem vai prender quem? As lamentáveis Cortes que temos, a deplorável magistratura que sustentamos com nossos impostos é ela mesma cheia de Pinguins e Charadas. Não há espaço para ingenuidade, a lei e a ordem vão se esvaindo como areia por entre nossos dedos e tudo o que foi construído com muito esforço nos últimos trinta anos - a minha vida adulta – se esboroa frente aos interesses privados e à vontade do tal de “mercado”, sem que temas de moral e ética provoquem a mínima indignação.
Todo o legado do século XX e as suas guerras mundiais parece não ser mais levado a sério. A luta contra os nacionalismos perversos e beligerantes como o nazismo, o fascismo e o nacionalismo nipônico, a luta contra a exclusão social, a luta pelas soluções globais negociadas e pelas leis e valores democráticos – o quer que isso queira dizer – ficam cada vez mais relativos.
O colorido vibrante do Batman de Adam West talvez queira nos dizer alguma coisa, nos lembrar de algo que ficou para trás. Um Bat-sinal.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

JOÃO E GERALDO, GERALDO E JOÃO


Confusão na Cracolândia é de Geraldo ou de João? (fonte)
Era uma vez Geraldo, era uma vez João. João e Geraldo, Geraldo e João. Geraldo era médico, um médico sacristão. Governador dessa gente, ele descia o porrete, ele adorava o bastão.  Já João era empresário, e não desdenhava tostão. Era prefeito gabola, se vestia de gari pra fingir que trabalhava. Pintava muro de cinza, pois gostava da cidade, mas não gostava das cores e nem de diversidade.  
Geraldo vinha de longe, do sopé da Mantiqueira. Era médico, homem simples, religioso com fervor. Acreditava, o coitado, que o homem drogado é um fraco, que é homem sem moral. Pra se curar de verdade, precisa de medicina e precisa de internação. Foi por isso que criou o projeto “Redenção”. Pra cada doente internado, Geraldo é que se redimia, mandava eles pra longe, pra onde a cidade não via.
João não quer saber de nada: ele quer é botar no chão, limpa a rua, dá escracho, e quer varrer pobre embora para a cidade arrumar : “Pobre pra lá do tapume, que não quero nem ver! ”. “Para cá chamo Jaime Lerner, cabra muito inteligente, pra deixar a cidade linda, cheia de luz indireta, boutique e floreira bonita”. Essa cidade granfina que ia brotar dos cortiços, que ia vencer as trevas, seria a “Nova Luz”, na ideia de João.
João e Geraldo, Geraldo e João. Ao chegar na Cracolândia, começou a confusão. Era polícia de um lado, era drogado pro outro, bala pra tudo que é lado. Nada disso era problema, pensava João: “Tudo era viciado, pardo preto cafuzo - isso nem gente é”. Prenderam então muita gente, bateram em muito noiado, botaram num camburão. Uns eram para o presidio, outros para internação, pra limpar a Cracolândia, implantar a Redenção. Era cassetete e bala construindo a Nova Luz.
Atrás vinham os tratores fazer a demolição. Ao derrubar uma casa, ali tinha gente ainda, que susto, que maldição! Esse monturo de gente, misturado com tijolo, gente preso no banheiro, parede caindo abaixo, era o mundo que caia em quem era noiado ou não. Quem tava na Cracolândia era gente sem valia, sem finança ou garantia, sem apoio e sem tostão. O meganha enfim gritou: “Que todos saiam da frente que já vamos demolir! ”. Lá de dentro uma vozinha, sem medo de resistir – “muita calma seu tenente, que aqui o que tem sim é gente, com direito de ir a vir”.
Geraldo e João, João e Geraldo. Pra acabar com a droga, não se acaba com o drogado: tem que dar uma chance pra ele se redimir. Problema não é a droga, problema é a pobreza, a falta de opção. Destruir a Cracolândia é só promover desmantelo, é como enxugar o gelo, só esparrama os noiado. Surgem outras cracolândias pela cidade inteira, tão rápido como o lacrimogêneo das bombas de gás da polícia: é toda a cidade a chorar.
Só com moral não resolve o problema do drogado: ele sabe seu estado, está no fundo do poço, mas com cassetete e alvoroço ninguém pode se curar. Pra eles largar o vício dê emprego e dignidade, que eles fazem sacrifício, e vão a droga largar. A vida na rua é dureza, e ninguém quer morar lá. O problema dessas drogas é problema de pobreza, rico também usa droga, mas tem casa para voltar.
João e Geraldo, Geraldo e João. Pra problema complicado, difícil é solução. Esparramar gente e bala e derrubar os cortiço é a pior solução. Sem encarar de verdade a tal da complexidade, livrar do crack a cidade vocês não irão nunca ver.  Vencer desemprego e pobreza, dar ao pobre seu orgulho, pra se acabar com o vicio é a verdadeira questão. Tratar o povo no cacete e tratar vicio com bala só revela o raciocínio de quem não tem compaixão. De João e de Geraldo, de Geraldo e de João.

sábado, 22 de abril de 2017

SOBRE GAMBÁS E SABIÁS

Flagrante do feroz gambazinho rugindo por entre as flores...
Aqui em casa temos um longo histórico de convivência com gambás e sabiás.
Os sabiás estão aqui quase todos os dias, faça chuva ou faça sol. Quando cortamos a grama, aumenta a quantidade dos bichos. Fica um monte deles na grama, para lá e pra cá. Gosto de ver os pulinhos que eles dão, num caminhar desajeitado tão típico dos tordos. Sua luta diária contra os vermes e as minhocas do gramado é quase épica, é um destes terríveis espetáculos da natureza. Ver o pássaro gigante e predador lutando contra o frágil e indefeso anelídeo é um duelo terrivelmente cruel e desigual, ocorrendo bem ali na nossa frente. Não deveria enternecer nossos corações, mas enternece. Não torcemos (eu não torço) para a minhoca. Sempre acho lindo o sabiá olhar para os lados, a minhoca (ou parte dela) retorcendo-se no seu bico. Num instante depois, o pássaro sai logo voando. Os filhotes precisam comer.
Os gambás são noturnos, e vivem sempre aprontando alguma. A lista é grande. Certa vez um gambá comeu os caquis que estavam no secador de frutas. Uns caquis belíssimos, vermelhinhos e docinhos. Não os culpo, eram realmente muito apetitosos e suculentos. Outra vez, remexeram no lixo, e fizeram uma grande duma bagunça na área de serviço. Outra vez ainda, Maria José se deparou com um destes gambás na cozinha e tentou espanta-lo de maneira gentil. Ele não se deu por achado, e ela então o cutucou com uma vassoura. Ele rosnou e mostrou os dentes. Vendo que o bichinho ia resistir, ela fez uso da mais letal das armas: o esguicho. Com uma potentíssima mangueira esguichando no seu focinho, o marsupial não teve mais argumentos e bateu em retirada. A cozinha ficou parecendo um território conflagrado, mas eles nunca mais se atreveram a entrar aqui dentro.
No máximo, andavam pelo quintal, num horário entre as dez e onze da noite. Entravam e saiam quase todos os dias, correndo pelo gramado. As vezes em dois, as vezes um. Até que estes dias eles reapareceram: roubaram uma manga e a deixaram semimordida no gramando. Era um sinal de sua presença. Outro dia, escutei um guincho e vimos dois gambás passeando pela fiação de luz em frente de casa. A luz dos postes refletindo por trás sobre os bichos lhes conferiam uma aura, como que recortados da escuridão. Ficamos um bom tempo apreciando os bichos a caminhar por entre as altas voltagens dos cabos elétricos da rua, vagarosamente, como se quisessem nos mostrar suas habilidades de malabaristas.
Ontem à noite recebemos a visita de um gamba ainda filhote. Sem se incomodar com nossa presença ficou por ali, mordiscando coisas no escuro. Quando fui ver quem era, ele fugiu. Fugiu para uma arvore cheia de flores. Quando apontei para ele minha cruel máquina fotográfica, ele soltou um rugido tão terrível que me fez medo. Parecia o Flor, do Bambi, rugindo por entre as flores do jardim. Foi engraçado e terno, que ri e deixei o bicho em paz.  Ele passou o resto da noite saracoteando por ali procurando sua comida.
Hoje de manhã, um sabiá estava na calçada, andando desengonçado por entre os matinhos que surgem nas frestas. Com um golpe certeiro, apanhou uma lagarta, a ficou ali a lutar contra ela. Fiquei um tempo torcendo por ele. Quando a lagarta não se mexia mais, ele a pegou no bico, deu uma virada de cabeça bem de passarinho, e se foi.
Quando tudo parece tão terrível, nada como cuidar do próprio jardim, como pedia o Cândido de Voltaire. Voltar ao simples. Os gambás e sabiás e suas urgências me parecem hoje um contraponto bem exato para a correria em que a gente se mete assim, sem-querer-querendo. O feroz gambá rugindo por entre as flores, entre assustado e assustador, e o pequeno sabiá catando comida para a prole somos nós.

(PS - vi que, entre feliz e assustado, esta é a 300ª postagem neste blog; puxa! um marco!  obrigado a todos pela paciente leitura e critica destas maltraçadas linhas....)

quarta-feira, 29 de março de 2017

OS "MILIONARIOS DOS QUILÔMETROS" CHEGAM AO FIM DA JORNADA




Era uma segunda feira de quaresma, e a igreja matriz de Antonina estava cheia. Parecia que era festa de agosto, a igreja lotada de gente, o burburinho tomando conta do átrio e ressoando pela nave da matriz. Era um dia de festa e regozijo. As oito horas da noite do dia 9 de março de 1942 o padre Leonardo Starzinski rezou uma missa em homenagem aos cinco escoteiros.
Faziam sete anos que o padre Leonardo estava ali na paroquia. Iniciara seu vicariato em 1936, substituindo o enérgico padre Bernardo Peirick, que havia feito muitas reformas na matriz, que ainda hoje guardam seu estilo. Padre Leonardo, ao contrário de padre Bernardo, eram um catequizador. Naquela noite na missa noturna, esperando pelo seu sermão, havia paroquianos especiais: os cinco rapazes recém-chegados de sua jornada a pé ao Rio de Janeiro.
Para o sermão, escolheu alguns trechos selecionados do Êxodo, falando das agruras sofridas pelos judeus em sua busca pela Terra Santa. Os sacrifícios, os descaminhos, as incertezas, tudo isso foi citado em seu sermão. Os rapazes escutaram tudo com atenção e devoção. Ao encerrar, padre Leonardo pediu a Deus para que os rapazes seguissem sempre os caminhos do Bem. E ressaltou que o seu feito servisse de modelo para as gerações de escoteiros do futuro, como anotou Lydio Cabrera em seu diário.
A aventura chegara ao fim. Depois das festividades da volta, houve ainda diversas atividades sociais a cumprir. Lydio nos conta que, no dia seguinte à chegada, aceitara tomar um chá na casa da Profª Assíria Linhares, onde contou um pouco de sua experiência à velha mestra. À tarde, os cinco rapazes foram visitar o capitão Custodio Raposo Neto, Prefeito Municipal, junto a outras autoridades, conforme anotou Lydio. Depois, ainda deram uma entrevista para o jornalista João da Cruz Leite, editor do Jornal de Antonina. Já estava de noite quando saíram de lá.
Mas as festividades prosseguiam: ainda nesta noite houve um jantar de confraternização na casa do Chefe Picanço. Lá, em volta da mesa, seu Manequinho fez um pequeno discurso, dizendo-se muito satisfeito com o feito dos cinco rapazes. Ressaltou que os esforços e a força de vontade de cada um haviam contribuído para o sucesso da missão. Eles eram, para seu Maneco, o orgulho do escotismo antoninense. Talvez, frisou o chefe, um feito desta envergadura nunca mais viesse a ser repetido no escotismo brasileiro.
Na reunião da noite, na Caserna dos Escoteiros, houve ainda uma Sessão Cívica. A bandeirante Araildes Horibe saudou os rapazes, finalizando com estas palavras: “os vossos nomes serão gravados na História de Antonina e com letras de ouro, no livro desta Associação, como os milionários dos quilômetros”. O Chefe Beto, agradecendo as palavras da Bandeirante Escoteira, disse que, “se fosse preciso, eles o fariam novamente, e com grande satisfação”. Ao final, a banda musical da tropa escoteira começou a tocar um dobrado, aumentando a alegria da festa. Com todos eufóricos cantando o Hino Nacional, a sessão foi finalmente encerrada. A missão havia acabado.
Ao sair da igreja aquele dia, sentindo o vento fresco vindo do mar, os cinco rapazes não sabiam do que a vida ia fazer deles. Cada um voltou a suas casas, a suas famílias, e cada um viveu suas vidas. Os meninos, durante toda sua vida, foram intensamente homenageados na cidade, onde viraram nome de rua, e onde sempre foram solicitados a contar os detalhes de sua aventura.
Mas sua missão não foi jamais esquecida. Hoje, mais de 70 anos, os valentes e ingênuos rapazes da Capela ainda povoam as nossas mentes. Não há antoninense que não saiba, ao menos por cima, sobre a sua expedição. Alguns os chamam de heróis. Outros, de loucos. Outros, ainda, acham que seu sacrifício valeu somente para um bando de políticos aproveitadores. Muito embora o significado verdadeiro de sua jornada se tenha perdido no tempo e nas memorias de quem a viveu, o feito ainda impressiona.
Não há como não se impressionar com cinco rapazes perdidos no mundo para entregar uma carta ao presidente. A carta em si não significou muito, mas a jornada colocou Antonina no mapa. Isto não é pouco.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O CURIÓ DE SEU ADMARO



Certa vez, o Sr Admaro Santos estava atrás de um bom curió cantador. Sabendo da demanda, nosso amigo Pompéia apresenta ao Jornalista um curió que lhe agradou bastante. Negócio feito, Sr Admaro colocou a gaiola em sua varanda para ouvir a suave cantoria.
Entretanto, começou a perceber que a pobre ave não conseguia subir direito ao poleiro. Mancava, puxando uma perninha. Ao perceber isso, procurou logo o Pompéia, para colocá-lo a par do que acontecia com o curió.
Ao saber do ocorrido e levar um sabão do Sr Admaro, Pompéia não se abalou. Ouviu até o fim, e depois perguntou, em sua defesa:
“Doutor, o senhor quer um curió que cante ou um curió que dance? ”

PS – esta história me foi contada há uns dois anos atrás durante o Jequiti Cultural pelo meu amigo Epitácio Machado. Não menos importante, foi contada junto com o próprio Pompéia, que só deu um sorriso maroto quando perguntei se era mesmo verdade...Será que Seu Maneco gostaria de conta-la?

quarta-feira, 15 de março de 2017

A VOLTA PRA CASA: A CHEGADA TRIUNFAL!


Ao cair da tarde do dia 4 de março de 1942, depois de passar ao largo de Cananeia e entrar no canal da Ilha do Mel, o vapor que conduzia os cinco escoteiros estava chegando ao atracadouro do porto de Paranaguá. O fato do navio chegar até ali e não ir até Antonina era simplesmente o fato causador da viagem dos rapazes, fazia três meses quase: o fechamento da Companhia Costeira pelo Governo Federal, que fazia a rota comercial até Antonina.
A carta que os rapazes haviam entregado explicava ao Ditador as razões da cidade para ter a volta dos navios da Costeira de volta. Antonina era o caminho mais curto para Curitiba, servido diretamente pela estrada da Graciosa. Era o atracadouro mais ocidental da baia de Paranaguá, com obvias vantagens em termos de distância e, consequentemente, em fretes.
Os navios da Costeira, que haviam sido recentemente estatizados pelo Governo, eram o grande elo que unia Antonina na rede do comercio de cabotagem do Brasil. Sem ele, o comercio perdia todas as suas vantagens e a cidade perderia muito em importância e em dinheiro. Na carta, a cidade pedia que a costeira pudesse voltar, e apelava para os mais nobres sentimentos do ditador.
Getulio fez o que lhe convinha: posou para fotos com os rapazes, ressalvou-lhes a coragem. Fez com que a Costeira voltasse a tocar, de maneira tímida, o atracadouro antoninense. Mas era pouco. Quando o ditador caiu, em 1945, a Costeira desapareceu tão irremediavelmente que nenhuma viagem a pé poderia faze-la voltar. A viagem dos rapazes que agora terminava como um grande sucesso, na verdade havia sido um movimento de grande coragem, mas em vão.
Longe deste horizonte, os rapazes iam acompanhando a manobra do navio para atracar no porto de Paranaguá naquele início de noite. No cais, os meninos foram recebidos pelo chefe dos escoteiros de Antonina, Maneco Picanço, e por alguns antoninenses que moravam na cidade. Foi uma grande festa. Um Ford V8 preto estava ali, esperando para levar os rapazes de volta para casa. Seria a última viagem até Antonina, de onde haviam partido em dezembro.
O motorista foi encher o tanque, uma tarefa bastante complicada naqueles tempos. A gasolina estava racionada em tempos de guerra, e demorou quase duas horas para voltar com o tanque cheio. De tanque cheio também estavam os rapazes, levados pelo Chefe para fazer uma boquinha antes da última viagem.
O Ford deixou Paranaguá as 22:00 horas, passando pela vila de Morretes despois de quase duas horas de viagem. Prosseguiram até Porto de cima e São João, no entroncamento da Estrada da Graciosa, onde pararam para descansar. Ali estava esperando por eles o Sr Nicolau Cecyn, em seu Ford verde, para acompanha-los no trecho final. No quilometro 8 da rodovia da graciosa o delegado de polícia de Antonina, o Sr Penny Withers, esperava para dar a boa vinda aos rapazes, em nome do prefeito, Capitão Custodio Afonso Neto.
Quando a caravana chefiada pelo Ford Preto cruzou a Avenida Thiago Peixoto, os foguetes começaram. Segundo Lydio, o espetáculo pirotécnico era indescritível. Foguetes e morteiros estouravam sem cessar, anota ele. Os carros só pararam, em meio ao foguetório, depois do portal da cidade, próximo do pátio da Estação Ferroviária. Uma grande multidão cercava os rapazes, dando-lhes beijos e abraços.
Como Lydio anotou em seu diário, teve início um grande desfile escoteiro nas ruas de Antonina que durou parte da madrugada, que só terminou na Caserna da Tropa Valle Porto, acompanhados por grande massa de pessoas. Ali, finalmente, os rapazes foram dispensados de sua missão e puderam ir para suas casas.
Ao chegar em casa, com sua família, Lydio conta que estava muito excitado para dormir. Estava cansado, com fome, mas sem sono, querendo desesperadamente falar. Sua mãe, dona Nathalia, foi fazer um café. Enquanto isso, Lydio contava para seu pai alguns dos detalhes da viagem. Eram 4 da manhã quando finalmente conseguiu pegar no sono. Segundo conta, sentia falta do balanço do navio. Fechava os olhos e tentava reter na memória tudo o que havia acontecido naquela memorável madrugada.
Enfim, em casa!