sábado, 23 de setembro de 2017

AO CHEGAR SETEMBRO


O casal de rolinhas, olhando desconfiado, enquanto isso tentam nos enganar e achar um local para seu ninho
Ontem foi o equinócio de primavera no hemisfério sul. Esta é uma primavera sem muita cara de primavera aqui no nosso canto do mundo. O espirito das pessoas não anda nada primaveril. Mas, vá lá, a primavera começou. O planeta deu um “clique” e girou um pouco em sua orbita, passando em cima do tropico. Agora se espera, aqui na parte de baixo do mundo, que os dias fiquem mais longos e com mais calor.
Aqui no nosso quintal vivemos uma seca que dura, com poucas interrupções, desde maio. Choveu, mas muito pouco, em junho e em agosto. A terra anda esturricada e dura. A grama e os capins altos estão meio secos. O céu azul as vezes chama algumas nuvens no horizonte, mas sem sinal de chuva.
As rolinhas teimam. Estão querendo viver, estão querendo se acasalar, criar filhotes. Fazem ninhos nos lugares mais estranhos: na samambaia, na lâmpada, no caibro da casa. Quando chegamos, o casal foge para longe e nos olha com ar de desconfiados. Eles lutam desesperadamente pela vida, pela sua vida.
Na nossa vida, continuamos com agruras. As pessoas se cumprimentam com os “como vai” e respondem com “tudo bem”, mesmo sabendo que nem tudo vai e muito menos bem. É a vida que teima em seguir.
Somos hoje uma sociedade cansada, sem esperança. A gente sempre desconfiou, mas agora temos certeza: somos comandados por bandidos. Estes bandidos desfilam impunemente em nossas telinhas, sorriem para si nas suas intermináveis reuniões. Estão intranquilos, mas tem a caneta em suas mãos. A caneta e o apoio da população.
Sim, nossa população apoia os bandidos e os corruptos. Com seu silencio, com sua omissão e com aquele pensamento que “aqueles lá” não prestam, não importa a cor. Alguns sabem que importa a cor. Mas a cor que manda agora é a cor deles, e então está ruim, mas está bom.
Nos sertões e nas periferias, o massacre é constante. As milícias de fazendeiros e as policias agindo como milícias estão se sentindo a vontade para fazer o que melhor sabem: assustar, expulsar ou matar. O que vier antes. Nas cidades, muitos aplaudem quando veem camponeses ou índios sendo mortos na televisão.
As outras milícias, as virtuais, não são menos letais: soltam os cachorros contra pobres, artistas, gays, mulheres, ciclistas (ciclistas?). Estão com a corda toda, fazendo seus robôs das redes sociais trabalharem contra a arte e a cultura. As milícias virtuais fazem o primeiro ataque. O judiciário não faz por menos: volta e meia um juiz iluminado proíbe arte, reflexão, discussão. O cerco vai se fechando.
Nas câmaras municipais, pululam as leis que vigiam os professores. As leis de censura brotam como que do chão. Nada de discutir escola, educação, inclusão. Agora,  trata-se de amordaçar professores.
A secura do chão se reflete na secura dos tempos. Parece que foi embora a saliva de nossas bocas, não há como gritar. A grita é inútil. Bem posicionados nas mídias, sempre tem alguém com um discurso de ódio e discriminação. A gritaria é enorme, como que  para desviar o foco dos reais problemas.
As chuvas que devem chegar não serão chuvas benfazejas. Serão grandes tempestades de vento, como ocorre em nossas primaveras. As rolinhas correm para fazer seus ninhos antes das tempestades. As fêmeas se seguram nos ninhos, mesmo debaixo de chuva, enquanto os machos correm atrás de galhos e alimento. Lá por dezembro, os filhotes, já fortinhos, ensaiarão seus primeiros voos.
Temos que esperar as tempestades, temos que resistir. Temos que construir outras saídas que não sejam responder aos odiadores. Temos que ter a nossa pauta, e não nos pautarmos pela deles.
A primavera é rude. Os tempos também. O que vamos fazer?
As rolinhas já estão fazendo. 

sábado, 16 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 8)



Se nada mais adiantasse contra a cólera, era preciso recorrer as orações...
A epidemia de cólera estava batendo à porta da Deitada-a-beira-do-mar. A população estava apavorada. As autoridades, embora tomassem diversas medidas, não sabiam exatamente o que fazer. Havia uma certa noção que a higiene era importante. Mas não se sabia como a cólera se transmitia. Nem qual seria o tratamento mais adequado. Assim a cólera se espalhou por todo o mundo no século XIX.
Estas pandemias de cólera foram extremamente mortíferas em suas várias manifestações nos últimos duzentos anos. Houve um grande esforço por parte dos governos e dos cientistas de todos os países para se descobrir as causas e também a cura para a doença. Sabe-se que o vibrião colérico foi descrito pela primeira vez em 1854 pelo médico italiano Filipo Pacini (1812-1883) e pelo inglês Robert Koch (1843 - 1910) que fez o anúncio da descoberta do bacilo da cólera em 1883.
Na Inglaterra, os trabalhos do médico John Snow (1813-1858) foram decisivos para que se descobrisse os modos de contaminação. Mas métodos eficazes de controle da cólera só seriam viáveis décadas depois disso.
No Brasil de 1850 também não se tinha um quadro completo de conhecimento para impedir a propagação da doença. Estima-se que o cólera tenha feito cerca de 200 mil vítimas no período 1855-56. Isso no tempo que a população total do pais era de aproximadamente 8 milhões de habitantes. Segundo Donald Cooper (ver aqui) , cerca de dois terços das vítimas foram provavelmente os escravos, que viviam em situação mais precária de higiene.
No entanto, como tratar a doença? As opiniões entre os médicos e autoridades também eram as mais diversas. Para alguns, um remédio infalível seria o sumo de limão. No Pará, onde o surto da doença foi bastante forte, o próprio presidente da província pareceu ter se convencido dos poderes curativos do suco de limão. A carta que o Presidente da Província do Pará escreveu foi publicada no dezenove de dezembro, na qual ele relata o tratamento (veja aqui). Na matéria publicada há também a citação de diversas pessoas que teriam sido curadas quando tratadas com o sumo de limão. A lista é bastante extensa.
Há também uma nota falando de um remédio sugerido por um médico francês, que seria também bastante eficaz (veja aqui).
Como em todo o caso de grandes epidemias, tentava-se de tudo o que estivesse ao alcance. Talvez não tenham sido poucos os que recorreram a curandeiros e a simpatias, remédios caseiros e outras formas de cura.
Também haviam as soluções metafísicas para a epidemia. Existem no período diversas publicações no jornal, onde se vendem as populares orações da estrela do céu e a oração de nossa senhora do desterro. Essas são orações muito comuns, que as pessoas deveriam comprar impresso e carregar consigo como proteção para a peste. Nossa Senhora do Desterro era a santa que protegia das pestes, bruxarias e calamidades. Era a ela que os piedosos e devotos habitantes da Deitada-a-beira-do-mar recorriam nestes momentos de aflição.  
De qualquer forma, parece que em 1857 os efeitos da epidemia parecem ter passado. Numa comunicação do presidente da província o texto cita a salubridade da província, que fora poupada pelo cólera. Da mesma forma, os hospitais improvisados construídos em Paranaguá e antonina foram desmobilizados (veja aqui). O governo imperial estabeleceu poucos anos depois um código para os portos onde estabelecia diversas normas de higiene (Ver o Código Naval do Império aqui).
E as outras doenças? Quais eram as doenças mais comuns em antonina e no litoral neste período? Como as pessoas se tratavam?

sábado, 9 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 7)


A Cholera morbus sendo recepcionada pelos médicos brasileiros e pelas condições precárias de saúde e higiene (fonte)

(Esta crônica é dedicada a meu grande amigo Marcos Cruz Alves)

Em 1994 houveram mais de 400 casos de cólera morbo em Paranaguá. Há ainda quem se lembre. A nossa vizinha foi atingida na oitava e última grande pandemia de cólera (1991-95) que atingiu principalmente a América do Sul e central. Na época as discussões giravam em torno de como pudemos ao final do século XX permitir o avanço de uma doença transmitida por condições precárias de higiene. E, naturalmente, se culpavam os mais atingidos, os mais pobres, por “não ter consciência” e se permitir viver (e morrer) em tais condições.
Em 1855-56 houve a primeira grande epidemia de cólera no Brasil. Este surto atingiu mais fortemente a Corte e o Norte, onde a doença se iniciou. Até então estivemos livres da doença, que teve seis grandes eventos desde o início do século. Originaria da Índia, os ingleses a levaram para a Europa. A partir daí, o vibrião ganhou o mundo.
Em 10 de outubro de 1855 o Dezenove de Dezembro publicou um relatório do Dr José Cândido da Silva Murici, que apontava algumas providencias a serem tomadas para impedir a entrada do cólera no Paraná (ver aqui). O Relatório baseava-se num outro Relatório, da Comissão Sanitária do Império.
Entre as medidas propostas pelo Dr Murici estavam a vinda de seis médicos e dois farmacêuticos para a província. Era grande a falta de médicos e de remédios para combater a cólera. Existiam lugares populosos em toda a província, onde não havia botica ou “ao menos, um curandeiro”.
Outra questão era a segurança sanitária nos portos. Sugeria o doutor ativar a construção de um lazareto em Paranaguá para controlar a entrada da doença na província.
O doutor também reclamava da falta de asseio da população, e a adulteração dos alimentos. Também alertava a “falta de força moral” das câmaras municipais e suas autoridades para se impor o asseio e fazer os vendedores terem mais cuidado.
O Doutor Murici propunha a construção de hospitais em cada cidade ou vila, propondo um para homens e outro para mulheres. Estes hospitais teriam que ter botica, além de médicos e pessoal suficiente para tratar dos enfermos.
Além disso, propunha o doutor a criação de comissões por quarteirão, para cuidar dos primeiros socorros e para transportar os doentes para os hospitais mais próximos. Uma vez que as pessoas acometidas da doença são de todos os sexos, o doutor Murici acha que seria “justo” que mulheres possam participar destas comissões.
O transporte dos doentes teria que ser feito por padiola. O transporte seria feito por escravos de cada quarteirão. Este serviço seria de primeira necessidade e os senhores não poderiam, por seu “vil egoísmo”, afastar seus escravos deste trabalho.
No caso de contaminação de uma localidade, poderiam ser erguidas barreiras entre estas e as localidades ainda não contaminadas. Entre o litoral e a serra-acima o Doutor Murici propunha a trancar as estradas da Graciosa e Itupava e colocar uma barreira de quarentena no Rio do Pinto.
Em Curitiba, o relatório propunha aterrar tanques como o do Bittencourt, na entrada da cidade. Também propunha aterros no rio Ivo e um ataque severo a aguas estagnadas na área urbana. Era, como já vimos, uma consequência da aplicação pratica da teoria dos miasmas.
O governo provincial gastou doze contos de reis, cerca de um milhão e duzentos mil reais na moeda de hoje, nas medidas preventivas contra o cólera, conforme informou à Assembleia Legislativa o padre Damaso Correa (ver aqui). A câmara de Antonina foi autorizada a dispor de 22 mil reis da mesa de rendas para as atividades de combate ao cólera.
Como consequência do relatório, comissões foram montadas em todos os munícipios e villas, onde era possível. Em Antonina, o Dr Carlos Tobias Reksteiner foi nomeado para fazer parte da comissão extraordinária de saúde pública da vila (ver aqui). O mesmo aconteceu para o doutor Theodoro Reichest, que foi encarregado da construção da casa de quarentena e lazareto, o que deveria ser feito “sem perda de tempo” (ver aqui).
Ainda em dezembro de 1855 o governo provincial respondia à comissão de saúde pública, que havia solicitado a criação de um hospital na vila para “socorrer os enfermos pobres”. Dizia que logo resolveria a requisição. Não sabemos de que maneira isso foi resolvido.
O medo da contaminação era muito grande. A notícia que dois marinheiros provenientes de Belém que haviam morrido em Paranaguá com sintomas de cólera. Numa nota de Curitiba, o redator avisava o fiscal de saúde pública que “o cholera está batendo à porta!”, chamando a atenção para o estado imundo que estava a rua do comercio (ver aqui). "Deus se compadeça de nós!”, concluía o texto. Os redatores do Dezenove, por outro lado,  pediam que não houvessem “receios exagerados” ou “terror intempestivo”. Segundo o jornal, as autoridades estavam fazendo o possível para evitar a chegado do mal (ver aqui).
Havia ainda os que encontravam algum humor na situação: Francisco Caetano de Souza, avisando através de anúncio que estava indo para o Rio de Janeiro em fevereiro de 1856, avisava que pretendia voltar “se o cholera o permitir” (ver aqui).
(continua)

sábado, 2 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 6)


As epidemias eram grandes ameaças no século XIX. Capa da Revista Ilustrada de 1876 mostrando a grande ceifeira aprontando as suas...e Antonina?
Antonina em 1854 era um lugar insignificante. Quando esteve brevemente na Deitada-a-beira-do-mar, em 1858, foi com essa palavra que o naturalista suíço Johan Tshudi descreveu a cidade (aqui). No entanto, ele não deixou de ressaltar que o cenário da cidade, com as serras ao fundo, fosse realmente encantador. Tshudi passeou pela cidade com somente ”duas ruas paralelas e uma fileira bem comprida de casas, que dão para uma praça coberta de capim, onde pastavam cavalos e vacas”.
Segundo Ermelino de leão, o que existia era a Rua Direita, a atual XV de novembro, e a Rua da Charqueada, atual Carlos Gomes da Costa. Esta última passou a se chamar depois rua de São Benedito, cuja igreja, ainda em construção, era a mais importante construção da rua. As duas ruas iam dar no largo da Matriz, a atual praça Coronel Macedo. Por ali, no campo aberto próximo da colina o mato crescia e todos deixavam para pastar os animais que Tshudi viu. A outras ruas, como a ladeira que vinha da matriz (a Ladeira da Matriz, portanto), as ruas da Fonte e do Lava-pés, citados por Ermelino, eram somente “carreiros” por entre as casas.
No entanto, a pequena e insignificante villa, que se tornaria oficialmente cidade três anos depois, tinha planos para si própria. Em 5 de setembro de 1854 é publicado nos jornais (aqui) uma resolução da Câmara Municipal da Villa Antonina sobre as posturas municipais. Posturas municipais são uma série de normas que as câmaras municipais produzem para ordenar as cidades (aqui).
O decreto estabelecia que os proprietários de datas teriam um prazo de até dois anos para edifica-las, sob pena de multa. Depois de 10 anos, a câmara poderia desapropria-lo. As casas eram obrigadas a serem alinhadas pela direção das extremidades da rua.
Os muros deveriam ter um mínimo de 12 palmos de altura, ou seja, cerca de 2,7 m. Os muros e as casas deveriam ser caiados ao menos a cada dois anos, sob pena de multa. Também era obrigatório o calçamento das frentes das casas, no nível da rua. Tudo isso era ônus do proprietário.
Quem tinha carro, ou seja, carro de tração animal que trafegasse pelas ruas da vila deveria pagar uma taxa de 2 mil reis anuais. Aos infratores, a multa triplicava.
Também os negociantes ambulantes tinham que pagar uma licença anual. Era comum naquela época a grande quantidade de vendedores ambulantes andando com tabuleiros e caixas pala cidade como pelas áreas rurais.
Havia uma preocupação grande com a saúde pública. O artigo 8º da resolução previa multas para quem deixasse porcos, cães e cabras vagando pelas ruas. Da mesma forma, todo aquele que atirasse as ruas “qualquer coisa de fácil putrefação”, ou que servisse de estorvo ao trafego de pessoas e carros deveria pagar uma multa e era, além disso, obrigado a lança-la fora. No caso de não se saber quem foi o porcalhão, o fiscal fazia o lançamento às custas da Câmara.
Era evidente a preocupação higienista do poder público. Naquela época acreditava-se na teoria dos miasmas, que eram doenças transmitidas pelo ar. Quando esteve em Antonina em 1883, o jornalista teuto-brasileiro Karl Von Koseritz (1830-1890) (aqui) notou que Antonina não era uma cidade limpa. O que o preocupava era que O pior estado sanitário é devido à extraordinária extensão das marés”. A lama do mangue assim exposta ao sol fazia Koseritz acreditar que em Antonina “não deverão faltar os miasmas”. 
A população da cidade se preocupava com sua saúde. Nos anos 1850 os surtos de cólera no Rio de Janeiro preocupavam as autoridades da nova província (aqui). Antonina e Paranaguá eram os locais mais preocupantes, devido as ligações marítimas frequentes com a Corte. Havia inclusive o projeto de uma quarentena para possíveis infetados na estrada da Graciosa e do Itupava.
No entanto, como resistir? Segundo o relatório enviado ao Presidente da Província, relatam planos a serem desenvolvidos no caso de uma real epidemia. Haviam poucos hospitais, com poucos leitos. Algumas localidades possuíam poucos médicos e algumas onde não se encontra “ao menos um curandeiro”.
Felizmente, a tal epidemia de cólera não veio. Mas, e se viesse? Como poderiam os nossos trisavós se safarem desta?
(continua)

sábado, 26 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 5)


Os escravos viviam sendo submetidos a humilhações e castigos; na Deitada-a-beira-do-mar não foi diferente...
A escravidão sempre foi um peso na História do Brasil. Antonina também tem seus pesos a carregar. Apesar de todo o clima de euforia com a melhora da economia no início dos anos 1850, os antoninenses livres dormiam sonos intranquilos. Desde o final do século passado, a revolta de escravos que havia resultado na República Haitiana era um pesadelo recorrente.
Por outro lado, a pressão inglesa pelo fim da escravidão era cada vez mais forte. Poucos anos antes, em 1850, um navio de guerra inglês, o HMS Cormorant, havia entrado na baia de Paranaguá e capturado os navios negreiros ali ancorados.
A história oficial narra que patriotas brasileiros revidaram, e chegaram a trocar tiros de canhão com a belonave inglesa na Fortaleza da Ilha do Mel. Há uma placa comemorativa lá no velho forte sobre o tal “Incidente Cormorant”. Pelo que se depreende dos relatos, o navio inglês entrou e saiu da barra da Fortaleza como e quando quis. Os tais dos patriotas gastaram pólvora contra um inimigo poderoso e uma causa ignóbil. Mas isso é um julgamento da posteridade...
Em 1854, na Villa Antonina, de cada cinco moradores, um era escravo. Tamanho contingente despertava muito medo entre os senhores, por receio de represálias. As revoltas de escravos, diante deste medo todo, eram punidas com redobrado rigor.
 O fato é que naquela época as histórias de navios ingleses que viriam libertar os escravos eram muito comuns. Em janeiro de 1859 a cidade estava em estado de alerta com uma possível revolta escrava (ver aqui). Alguns escravos chegaram a interpelar o delegado, acusando de que este estava escondendo notícias de uma possível emancipação dos escravos. O delegado, com medo, mandou descer tropas de Curitiba e Morretes. Ao fim, nada aconteceu (ver aqui).
O medo era que se repetissem os terríveis acontecimentos de 1835. Naquela época, os escravos do armador José Luiz Gomes assassinaram seu senhor e, segundo os relatos, roubaram uma fortuna em moedas. Isso foi narrado por Ermelino de Leão no livro "Antonina, Fatos e Homens", capítulo 20, pag. 136.
José Luiz Gomes tinha um grande sítio no Pinherinho. Era armador de navios e participava do tráfico negreiro, tendo acumulado grande fortuna. Depois de assassinar seu senhor, os escravos fugitivos foram capturados e mortos, tendo seus corpos exibidos em postes por toda a área do Pinheirinho. Tempos terríveis.
A resistência dos escravos também se dava de outras maneiras. Em 1º de outubro de 1855 o preto João, de nação congo, fugiu de seu senhor Manoel José da Rosa Junior, morador da rua da Carioca em Antonina. Segundo o anúncio (ver aqui), João tinha 20 anos, era baixo e tinha pouca barba, dedos curtos, dentes afinados e olhos um pouco vermelhos. Tinha fala atrapalhada. Quando fugiu levou roupa de algodão, calças riscadas e um cobertor.
Era comum essa descrição mais ou menos detalhada. Na falta de fotos, ela garantia a identificação do escravo fugitivo. A gratificação para quem apreendesse João Congo era de 40 mil réis.  Para se ter uma ideia, um escravo custava nesta época cerca de 320 mil reis.
Em novembro de 1854 o cidadão capelista Antônio José Alves publica um anúncio no Dezenove de Dezembro (ver aqui) avisando da fuga de seu escravo Antônio. Segundo o anuncio, Antônio tinha cor parda e estatura ordinária, olhos pequenos, corpo reforçado, cabelo corredio, pernas grossas e um tanto zaimbras (o que seria isso?). Tinha ainda os pés esparramados. Quando fugiu vestia camisa e calça de algodão grosso, e um embrulho com mais alguma roupa. O senhor ainda prometia recompensa para quem lhe devolvesse Antônio, além de uma “gratidão eterna”. Ainda segundo o anúncio, Antônio tinha como profissão oficial de pedreiro.
Uma fonte de renda muito comum nesta época era o aluguel de escravos como Antônio para atividades diversas, como pedreiros, carpinteiros, etc. Eram os chamados “pretos de ganho”. Num processo de 1859 descrito por Silvia Correia de Freitas (ver aqui) descreve um caso de violência envolvendo um “preto de ganho”.
O preto Simão, que trabalhava alugado  como padeiro, foi castigado por Luís Manoel da Cunha, dono de uma Padaria na Deitada-a-beira-do-mar. Ao ser acordado de madrugada para trabalhar na massadeira de pães, Simão argumentou que não era seu serviço e foi por isso castigado com bofetadas e golpes de cabo de vassoura. Simão então levantou-se e foi para a casa de seu senhor, pois este havia lhe garantido que “não aguentasse desaforo”.
O castigo físico dos escravos era uma constante. Entretanto havia na sociedade uma ideia de que este castigo deveria ser “justo”. Em junho de 1859 foi aberto em Antonina um processo do escravo Diogo, que estava na cadeia para se avaliar seu estado. Diogo dizia estar com a costela fraturada e um braço bastante machucado.
Os presos da cadeia diziam que Diogo estava vazando sangue pelo nariz e pela boca. Não conseguia se mover e estava prestes a morrer. No entanto, todos os testemunhos, a maior parte negociantes e lavradores da cidade diziam que o escravo apanhara de seu senhor por motivo justo.
Diogo não foi interrogado no inquérito. Francisco Ferreira Correa, promotor de justiça em Paranaguá, faz um arrazoado sobre as reclamações do escravo Diogo. Diz o promotor que o senhor tinha direito a castigar seu escravo, e que o espancamento não tinha sido brutal.

A prova é que o exame de delito, efetuado cinco dias depois da queixa, mostra que o escravo não teve nenhum osso quebrado. Segundo o nobre promotor, “o corretivo consistiu em um castigo moderado, o que é permitido no parágrafo 26° do artigo 16 do Código Criminal”.

O promotor Corrêa acrescenta que o réu, o Senhor Correa, não deveria ir à julgamento. A surra em Diogo não configurara um castigo severo. Além disso, a punição de um senhor que castiga seus escravos, argumenta o promotor, “ficaria com um precedente que acarretaria consequências de desrespeito e insubordinação dos escravos para com seus senhores” (aqui).

Estas são histórias pouco edificantes da bela Antonina. Muitas outras histórias de brutalidade e desrespeito poderiam ser contadas. Essas poucas historias, terríveis, nos remetem diretamente para nosso tempo.

Apesar de já não termos escravos, quantas vezes atos semelhantes não se repetem? Quantas vezes nos calamos vendo a brutalidade ocorrer na nossa frente? Quantas vezes ainda vamos tolerar a morte banal de pessoas simples e humildes somente pelo fato de serem humildes? Como um branco (e filho de desembargadora!) sai inocente após ser preso com drogas e armas, enquanto o negro Rafael Braga continua preso por porte de Pinho Sol?


sábado, 19 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 4)


Desembarque de passageiros no porto do Rio de Janeiro no século XIX. Imagine-se como era em Antonina...
A Villa Antonina estava animada em 1854, no início da emancipação da província. Eram vários os motivos para que os capelistas rissem à toa. A economia aumentava, pessoas começavam a antever um futuro melhor para os seus negócios. O principal motivo era que estava sendo desenvolvido, ainda que lentamente, um sistema de transporte de cabotagem baseado principalmente em navios a vela e que fazia a transição para navios movidos a carvão (ver mais detalhes aqui). Desde a Regência havia se iniciado uma incipiente navegação de cabotagem no Brasil. A Deitada-a-beira-do-mar era um dos pontos onde os navios atracavam.
Mas existiam vários problemas a serem resolvidos. Um deles era a falta de atracadouros. Não haviam locais bons para que passageiros e mercadorias pudessem desembarcar. Em 1858, o naturalista suíço Albert Tschudi (1818 -1889) assim descreveu o atracadouro:
Na baixa-mar, o desembarcadouro [de Antonina] é uma costa lamacenta muito traiçoeira; um dique de pedras nuas, nas quais há sempre o perigo de quebrar as pernas, não o torna nada melhor” (ver aqui).
Provavelmente o transporte de cargas e de pessoas era feito por pequenas canoas e chatas das embarcações até terra firme. Somente em 1865 o engenheiro Antônio Rebouças teve seu plano de construir uma ponte de embarque em Antonina aprovado. Não sabemos se teve sucesso ou se o atracadouro da cidade ainda teve que esperar ainda mais alguns anos (aqui).
Ainda em 1855 (ver aqui) o administrador interino da Mesa de Rendas, um dos órgãos ligados ao porto, estabelecia que o trabalho de embarque de mercadorias seria feito tão somente no lugar denominado Ponta da Pedra, no cais localizado em frente a rua Ypiranga (onde seria?). No regulamento (aqui) Pinheiro estabelece que todo aquele que “de algum ponto ou praia” se dirigirem ás embarcações terão as mercadorias apreendidas. Quanto contrabando deve ter passado....
Um relatório da Mesa de Rendas da Villa Antonina, publicada em novembro de 1854 (aqui), nos diz que, de maio a novembro, atracaram 29 embarcações no porto. Destes, 11 eram navios de pequena tonelagem, como lanchas, escunas ou iates. Estes barcos pequenos, movidos a vela, faziam transporte local, em geral para Santos, Iguape ou para os portos de Santa Catarina.
Os barcos médios, brigues ou patachos, alcançavam até 100 toneladas. Eram igualmente embarcações movidos a vela, com dois mastros e pequenas variações entre si na configuração das velas (Para diferenças, ver aqui) .  Estes veleiros faziam travessias maiores, tendo como destino Santos ou Rio de Janeiro.
As barcas eram os maiores navios. Também movidos a vento, tinham três mastros e as maiores tonelagens. O destaque no porto de Antonina naquele ano foi a barca Dianna, de 280 toneladas. Era cerca de dez vezes a tonelagem de uma escuna e ter vezes a de um brigue ou patacho. A Dianna transportou arroz, madeira e erva mate para o Rio de Janeiro.
As mercadorias, como vimos, eram produtos da terra, como arroz, madeira, telhas e cal. Por vezes, transportava-se também erva mate e farinha.
Outro destaque desta lista é o brigue Paranã. Era de Antonina, o que pressupõe um armador com porte suficiente para arcar com as despesas deste tipo de navio. Seu proprietário era Joaquim Leite Mendes. O brigue Paranã neste ano de 1854 fez duas viagens para o Rio de Janeiro, uma em maio e outra em outubro. Transportou para a Corte erva mate, madeira e arroz. Em janeiro de 1855 o Paranã publicou um artigo no Dezenove de Dezembro (aqui), em Curitiba, no qual anunciava ainda receber carga, além de oferecer “cômodos suficientes” para passageiros.
Um comercio incipiente começava a se fazer entre A Villa Antonina e a Capital. Com a chegada do conselheiro Zacarias a Estrada da Graciosa começava a ser reparada. Enfim a Graciosa deixaria de ser uma trilha de tropeiros para se tornar uma estrada carroçável. Em julho de 1855 foi expedida uma ordem (ver aqui) para o responsável pelas obras, o engenheiro Vilalva, a começar o calçamento de Curitiba até a borda do Campo e de Antonina até são João da Graciosa.
Oportunidades surgiam em todos os lados. Um comerciante capelista anuncia no jornal Dezenove de Dezembro (aqui) que dispunha armazenar e despachar cargas vindas do Rio de Janeiro para Curitiba. Diz que garante armazenagem por dois anos, com acondicionamento das mercadorias.
Outro comerciante capelista anuncia, em 1856 (aqui), a venda de terreno próximo ao mar, permitindo o acesso de embarcações e chatas. Segundo o anuncio, o terreno tem um excelente armazém construído com pedra e cal. Tem ainda um palacete construído de pedra, cal e excelentes madeiras, próxima do largo da matriz, com aprazível e elegante vista para o mar.
Neste mesmo anuncio se oferece também um armazém na Rua da Praia com 40 palmos de frente, com acomodações para família e negócio. O capitalista capelista prefere vender tudo, inclusive com escravos de ambos os sexos, a um só comprador.
Com escravos e tudo? E a gente ainda acha os nossos tempos estranhos...

sábado, 12 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 3)


Charge denunciando o recrutamento forçado no Brasil do século XIX
As eleições no Segundo Reinado eram marcadas pela fraude e pela violência. Não raro os conflitos acabavam em brigas generalizadas. E estas brigas muitas vezes ocorriam dentro da própria Igreja, onde as eleições eram realizadas.
Não temos registros de violência nas eleições da Deitada-a-beira-do-mar. A profa. Cecília Westphalen narra uma eleição com duas vários feridos e mortes ocorrida em 1852 em São José dos Pinhais. Outra vez ainda, em 1849, uma eleição para a assembleia não foi realizada em Curitiba por causa dos distúrbios e violências. As autoridades da cidade tiveram que se refugiar em Morretes, segundo Antônio Vieira dos Santos. Uma tropa vinda de São Paulo passou por Antonina rumo a Curitiba para conter os ânimos. Mas tudo já tinha sossegado e a eleição já havia sido realizada.
Naquele tempo na província, haviam dois grandes partidos. Os Conservadores, nacionalmente apelidados de Saquaremas, eram chamados no Paraná de “Cascudos”. Os Liberais, ou Luzias, eram chamados de “Farrapos”.
As eleições de 1854 no paraná foram feitas sob a vigência da nova “Lei Regulamentar”, de 1846. Quem elaborava as listas e coordenava os trabalhos de votação eram as mesas eleitorais dos distritos. Cabia ao Juiz de Paz, juntamente com os eleitores de paroquia eleitos nas ultimas eleições montar as tais mesas. Como as mesas eleitorais escolhiam que podia e quem não podia votar, seu controle era disputado pelos partidos. Em Paranaguá o Juiz de Paz que enviou a lista de votantes era Manoel Antônio Guimarães, futuro Visconde de Nácar, destacado comerciante e membro do Partido Conservador. Nesta eleição Guimarães foi leito deputado provincial. Um dos seus genros um foi eleito deputado provincial e outro deputado geral.  Dizia-se, não sem razão, quem controlava a mesa controlava a eleição.
Em 1854 foram realizadas as primeiras eleições para senador da nova província. Como mandava a legislação, foi eleita uma lista tríplice, posteriormente enviada ao Imperador. O Senador vitalício escolhido foi o mais votado: João da Silva Machado, o Barão de Antonina. Nascido no Rio Grande do Sul, João Machado era envolvido com o comércio de tropas. Sua base era a região dos Campos Gerais, principalmente em Castro.
Não tinha nenhuma relação com a cidade que lhe conferiu o baronato. Aliás, seu título de barão foi resultado de sua lealdade ao poder imperial durante a Revolução Farroupilha e durante a Revolução Liberal de 1842. Foi também um grande incentivador da imigração alemã na província, que culminou com a fundação da colônia alemã de Rio Negro. Aos 72 anos e residente em São Paulo, esta eleição foi um momento alto de sua vida.
O poder na província do Paraná, assim como em todo o Brasil, era um privilégio dos mais ricos. As pessoas simples deveriam, neste contexto, procurar a proteção de um patrono a quem pudessem recorrer nas necessidades. As famílias mais poderosas tinham ao eu redor um grande número de agregados.
Um agregado era uma pessoa que, mesmo sem vínculos de sangue, fazia parte da família em troca de favores. Podia ser um pequeno agricultor que tinha autorização para ter sua terra na propriedade do senhor, ou algum trabalhador urbano avulso que fizesse pequenos serviços em troca de sustento.  As teias de patronagem da sociedade imperial procuravam abranger a todos, em complexas relações de favores e obrigações.  
Uma das maiores ameaças para os homens livres pobres era o recrutamento forçado. Por qualquer motivo – brigas, bebedeiras, ou vagabundagem – alguém podia ser enviado para servir seja no exército seja na marinha ou em alguma milícia. Este recrutamento forçado era utilizado com instrumento de barganha pelas autoridades, tentando conter a violência e garantir a lealdade das pessoas mais humildes.
Em geral, estes alistados a força não tardavam em desertar. O resultado é que a maior parte do trabalho policial era prender e remeter de volta estes desertores a suas unidades. Em novembro de 1854  (ver aqui) José Pereira, natural do Sambaqui, em Antonina, a pretexto de “mal comportado e vicioso” havia sido recrutado para a marinha.
Entretanto, a prisão de José Pereira havia se dado próximo de eleições, quando o recrutamento era proibido. Colocado no navio para o Rio de Janeiro, onde serviria na Marinha Imperial, José Pereira havia conseguido fugir. Agora, travava uma luta judicial para provar que não era desertor.
O transporte tanto dos recrutas quanto dos desertores – era tudo a mesma coisa – era feito da mesma forma que para os escravos.  Em 1855 o delegado de Policia de Antonina foi ressarcido pelo transporte de “recrutas e desertores” de Antonina para Paranaguá (ver aqui). Para tanto, o delegado José Dias Barbosa havia comprado correntes, gargalheiras, algemas e cadeados para o transporte. Foram transportados ao todo onze desertores e três recrutas (ver aqui). 
(Continua)

domingo, 6 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 2)


"Bazar eleitoral”, charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867 (ver aqui).
Uma vez que no Brasil Imperial a igreja fazia parte do estado e a religião católica era a religião oficial, a construção e manutenção das igrejas era um assunto público. Frequentemente se vê nos jornais da época relatórios oficiais tratando destes temas. No Dezenove de Dezembro de 1866, há um relatório sobre as principais igrejas da província (ver aqui). Entre elas, a da Deitada-a-beira-do-mar.
Consta que a matriz de Antonina sofreu reparos gerais em 1860, financiados com “esmola dos fiéis e auxilio da câmara”. Faltava, entretanto, para conclusão das obras a colocação do forro, um altar lateral e corredores. O texto também diz que a torre estava com a cúpula arruinada, necessitando de “prompto comcerto”, reboque e caiação. Segundo o texto, o orçamento para esta última etapa era de 5 contos de reis (aproximadamente 500 mil reais em valores de hoje). Já as igrejas de São Benedito e Bom Jesus do Saivá ainda vão em andamento, “com os auxílios dos fiéis e a pequena consignação dada pela província”.
A morte em Antonina, como na maior parte do Brasil, era um evento. E um evento público, que poderia e deveria ser assistido por todos. Não era raro que o quarto do moribundo fosse tomado por uma multidão. Em 1855 os irmãos Francisco Antônio, José Candido e Ignacio José de Souza publicam uma nota no jornal (ver aqui) onde agradecem aos que acompanharam o funeral de seu pai. Os irmãos também agradecem aos que “acompanharão os acima em seus desgostos”, ou seja, na hora da morte.
Nos funerais deste período o prestigio e a salvação do morto eram garantidos com funerais numerosos. Quanto mais gente e mais barulho, o funeral tinha tudo para ser bem-sucedido. Segundo as crenças da época, garantia a salvação da alma. Embora já estivesse em desuso, era comum a presença de muitos padres para acompanhar o funeral. Bento Soares da Costa e dona Maria Joaquina Soares da Rocha, além de agradecer as pessoas que acompanharam os funerais de sua filha Anna Bernardina, agradecem também aos padres Antônio Machado Lima e Jordão Homem Pedroso (ver aqui).
Os defuntos eram enterrados com roupas de suas irmandades. No caso de oficiais da Guarda Nacional, eram enterrados com seus uniformes de gala. Crianças eram enterradas com roupas de anjos, os “anjinhos”.
Os funerais, assim como os de hoje, eram feitos imediatamente após a morte, no máximo no dia seguinte. Em setembro de 1856, Joaquim Antônio dos santos Souza publicou matéria no jornal dezenove de dezembro em que reclama do vigário de antonina. O padre João Homem Pedroso, por “capricho indiscreto”, havia retardado o translado do corpo de sua mãe. A senhora fora enterrada no cemitério de Morretes, quarenta horas após seu falecimento (ver aqui).
As igrejas, neste tempo também eram importantes por que ali é que se realizavam as eleições. Afinal, os distritos eleitorais eram divididos em Paróquias. Pode parecer estranho ao leitor de hoje, mas, num regime em que a Igreja era atrelada ao Estado tem uma certa lógica. Em geral, as igrejas eram os maiores e os mais bem construídos prédios de uma cidade ou vila. Era natural que o Estado usasse deste fato para ali fazer as votações e a apuração dos votos.
Só podia votar neste tempo a população masculina livre que podia comprovar uma certa renda anual de 100 mil réis. Não era uma renda alta, mas já excluía muita gente. Cada distrito, pelo número de pessoas aptas a votar, os eleitores de paróquia, elegia um certo número de “eleitores de província” para o colégio eleitoral. Era este Colégio Eleitoral que escolhia os deputados provinciais e os deputados que iam a corte.
Com a emancipação do Paraná a Província, inúmeras modificações estavam sendo feitas. Em 1855 foram criados os colégios eleitorais de Antonina Morretes e Porto de Cima, independentes de Paranaguá (ver aqui). Em 1856 Antonina tinha 8 eleitores (ver aqui), contra os 3 eleitores de Porto de Cima, os 7 de Morretes e os 26 de Paranaguá.
Para ser candidato a eleitor, ou seja, para participar do colégio eleitoral, o cidadão tinha que comprovar uma renda mínima de 200 mil reis. Candidatos a Deputado deveriam ter uma renda mínima de 400 mil reis e para senador essa quantia chegava a 800 mil reis. Eleições no Brasil imperial era um assunto da elite.Não é de estranhar que as listas de eleitores eram geralmente encabeçadas pelos comerciantes e fazendeiros mais ricos de uma determinada localidade. A lista de eleitores de Paranaguá em 1856 era liderada por Manuel Antônio Guimarães, o Visconde de Nácar. Em Antonina e Morretes as listas eram preenchidas com nomes de pequenos comerciantes e agricultores.
As eleições se realizavam no dia 31 de dezembro. Os trabalhos se iniciavam com uma missa solene na igreja. Não raro, as pessoas iam a esta missa com seus melhores trajes. Era comum que os integrantes da Guarda Nacional de cada localidade fossem nestas missas com seus melhores uniformes, cheios de galonas e medalhas.  Depois, a comissão eleitoral tomava posse do edifício e a eleição era feita.
(continua)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 1)


"Vista Geral de Antonina,1872", aquarela sobre papel de William Lloyd, 11 x 34 cm (duas folhas coladas), Liga Ambiental, Curitiba;

Um breve resumo de jornal (ver aqui) nos dá uma ideia de como era a Deitada-abeira-do-mar há 163 anos atrás.
Na década de 1850, a Villa de Antonina (não mais a Villa Antonina) tinha 4160 habitantes. Destes, 2092 homens e 2062 mulheres. A maioria é jovem: 2410 tem menos de 21 anos. 1168 habitantes têm entre 20 e 40 anos e 582 são mais velhos. Em 1853, segundo este censo, houveram 248 nascimentos e 102 enterros, sem precisar a idade. Trata-se, portanto, de uma comunidade com predomínio de jovens e crianças.
Dos seus habitantes, o censo consta com 2664 brancos, 604 mulatos e pardos e 892 pretos. O total de escravos é de 838, o que representa 20% do total da população. Não temos dados a partir destes para ver como era distribuída a posse destes escravos.
Esta população estava espalhada por 12 quarteirões, que eram os bairros a partir dos quais se fazia o censo. Estes quarteirões eram: 1) a vila; 2) a estrada da vila para a capital (a saída da cidade, no caso desde o fim do morro do bom brinquedo até alguma altura da estrada da graciosa); 3) estrada da vila para Porto De Cima; 4). No rio de são João até as Carniças (porto das carniças); 5) Saquarema; 6) Registro (foz do Nhundiaquara); 7) Faisqueira; 8) rio do Serro (Cedro?); 9) Cachoeira; 10) Cacatu; 11) novamente na Faisqueira; 12) Nhundiaquara.
Não temos ideia (o texto não indica) quantos fogos existiam em cada quarteirão. O “fogo”, unidade básica do Brasil nos primeiros séculos eram as casas, onde moravam as pessoas.
Segundo o censo, o município tinha 48 casas de negócio. Em termos de agropecuária, tinha 454 sítios de plantação e lavoura e 56 sítios de criação de animais. A produção deveria ser majoritariamente de cana e mandioca. Haviam 33 engenhos de aguardente em funcionamento trabalhando com bois e 25 engenhos movidos por agua. Além disso, havia ainda 30 olarias, que fabricavam louça, telha e tijolo.
A luz destes dados, a sociedade capelista era fundamentalmente agrária, produzindo como excedentes cachaça e farinha de mandioca. A mão de obra destes engenhos era provavelmente escrava. Faltam maios dados para ir além disso, mas comparando com outras áreas é esse o quadro que surge.
A população deveria habitar majoritariamente a zona rural, só indo à cidade aos domingos para a missa. Nestes dias, deveria lotar a pequena capela da colina. Neste tempo já se havia perdido o costume de se fazer transportar em redes e liteiras, como nos tempos coloniais. As famílias vinham em procissão, com o pai à frente, a mulher e os filhos logo depois. Encerrando o cortejo, os escravos, que ficavam no fundo da igreja. O tamanho do cortejo refletia a riqueza e a importância da família naquela sociedade.
Naquele tempo, era importante socialmente fazer parte das irmandades. Na Deitada-a-beira-do-mar, existiam três: a de são Benedito, a mais antiga, a do Pilar e a do Santíssimo Sacramento. Em geral, estas irmandades tinham a presença de todos, sendo as pessoas mais ricas e poderosas convidadas para cargos de direção. Eram as irmandades que faziam as festas e que organizavam a vida da vila.
Os padres, neste tempo em que não havia separação entre Igreja e Estado, eram funcionários públicos. Recebiam um salário do governo, a côngrua, que mal dava para suas despesas. Complementavam seus ganhos com contribuições recebidas das irmandades e de particulares para festas, casamentos, batizados e funerais.
Haviam três igrejas na vila. Destas, a única que tinha condições para missas era a matriz. A Igreja de São Benedito estava apenas coberta. A do Bom Jesus só tinha as paredes. O cemitério do Bom Jesus era particular, e não havia ainda recebido a benção. Provavelmente, as pessoas eram enterradas, como o costume da época, nas igrejas. Não temos ideia como seriam e onde estão os corpos destas pessoas. As pessoas mais ricas eram enterradas mais próximo do altar. As outras conformavam-se com as partes menos nobre e, aos escravos, era reservado o adro ou as partes externas.
(continua)

domingo, 16 de julho de 2017

A MARIA ANTONIETA DAS ARAUCARIAS



Nem assaz alhures e antanho
era um evento tamanho
a sagração nupcial”
Edu Lobo e Chico Buarque,
O Grande Circo Místico

Não houve assunto na “Capital Ecológica” que não fosse o grande espetáculo que foi o casamento de Maria Victoria Borguetti Barros. A Maria Antonieta das araucárias. A moça, herdeira presuntiva (?) do clã dos Barros, queria se casar. E então a princesa escolheu (sonho de noiva!) a Igreja do Rosário, bem no centro de Curitiba. Para a Festa de suas bodas, a jovem deputada pelo PP escolheu, naturalmente, a Sociedade Garibaldi, que fica logo ali, logo ali do ladinho, como diríamos em Antonina. E deu no que deu.
As coisas não cheiravam bem desde a semana passada, quando foi mostrada pela imprensa a bizarra estrutura da festa no Palácio Garibaldi.  Tudo indicava que um grande evento sem-noção estava para acontecer. A ocupação de bens tombados, a ostentação da Festa de Maria Victoria, os preparativos na Igreja do Rosário, tudo indicava um cenário perfeito para uma manifestação.
Segundo o Blog do Esmael, a ovação foi pensada dentro do próprio palácio do governo estadual. Certamente por pessoas contrárias à pré-candidatura de Cida Borguetti, a mãe da noiva, ao governo do estado.  A própria direita xucra do MBL não via com bons olhos a ostentação, embora apoiem Temer e outros canalhas, como Beto Richa. Foram, entretanto, os movimentos de esquerda que foram à frente da Igreja distribuir ovos e enfrentar a polícia. Ponto pra nós.   
As cenas de confronto e as ovações foram amplamente divulgadas pelas redes, não é preciso repeti-las aqui. Outros já falaram da ostentação, do momento, da falta de sensibilidade (ver aqui). O que me incomoda é outra coisa.
copiei daqui
Quando esteve na Província do Paraná, em 1880, D. Pedro II soube, por um político local, que o Dr Jesuíno Marcondes (1927-1903) estava fazendo falcatruas com compra e vendas de terras, fraudando o Tesouro Imperial. O imperador ficou furioso, e anotou em seu diário: “outra vez! ”. Nada aconteceu. Jesuíno Marcondes foi por diversas vezes Presidente da Província. Era inclusive o presidente em exercício quando veio a República, que o fez exilar-se belamente em Genebra, onde morreu.
Silvio Barros, o pai de Maria Victoria e Ministro Golpista da Saúde, deu declarações à imprensa dizendo que “tudo ocorreu como deveria” (ver aqui). A própria noiva teria dito aos jornais que isso era o “preço da democracia”. Ou seja, eles tinham plena certeza do confronto e o programaram, como se fosse uma propaganda política. Eles vão ficar expostos, todo mundo vai falar deles, a casamento vai virar “trend topic” nas redes e tudo bem. Eles saem ganhando com a exposição.
É este o cerne da questão. Enquanto os políticos da “Revolução Corrupta” estão ocupando espaços e alterando radicalmente as leis e a política, o que fazemos? Quais as metas? Estamos nas cordas, tentando defender Lula, tentando defender o PT. Mas, o que nós dizemos para a população que está perdendo seus direitos e está vendo essa barafunda toda?

De que adianta falar do simbólico, dizer que a igreja do Rosário era uma igreja da “irmandade dos homens pretos”? Maria Victoria quer se casar lá porque a igreja é bonitinha. Se tiver problemas de condução, ela pega um camburão. Se não der pra ir, ela chama a polícia. Pior, a polícia vai quando ela chama!
O poder no Paraná (e no Brasil, por suposto) está nas mãos desta canalha. Uma canalha que dorme bem de noite.

Quem precisa de desprincesamento somos nós.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O LADRÃO DE ANTONINA


Pobre país! A corrupção alimenta a vaidade, para dar vida ao patriotismo!” – é a legenda da charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867 (copiei daqui).
Hoje vivemos tempos muito turbulentos. Em nome do combate a corrupção, diversas ações têm sido realizadas. Recentemente, na nossa bela Deitada-a-beira-do-mar, tivemos uma prisão importante, de uma pessoa bastante poderosa. Por outro lado, inúmeras prisões são realizadas num espetáculo de mídia, como se o mais importante fosse a encenação e não o principal. Quando a pessoa presa é liberada, por problemas da acusação, seja por insuficiência na acusação, seja por falta de provas, a grita é enorme.
Não é possível condenar por convicção, como já dissemos. Por outro lado, em outros processos provas arrasadoras são mostradas e não provocam nem ação de polícia nem indignação das pessoas. Estes são os tristes tempos em que vivemos. Como era, no passado, o combate à corrupção? Como casos de roubo do bem público eram tratados no Paraná e em Antonina no passado?
Esta é a história de Luiz Tibireçá da Silva Dória, que foi nomeado em 21 de abril de 1854 como coletor interino das rendas provinciais da Villa de Antonina (ver aqui). Era um cargo importante: Luiz Tibireçá deveria recolher os impostos devidos e, no momento certo, fazer também os pagamentos aos funcionários públicos e demais despesas do governo.
Trata-se de um cargo vital para a arrecadação de impostos do governo. O tal do coletor, por isso mesmo, é uma pessoa importante socialmente nas cidades onde havia a tal da coletoria, e assim o foi durante muito tempo. Era ele que literalmente coletava os impostos e fazia os devidos pagamentos do governo. Pra se ter uma ideia, no Paraná, os pagamentos e o recebimento de impostos só foram separados, da maneira como temos hoje, no início dos anos 1960, no governo Ney Braga.
Não sabemos, em função dos poucos documentos que temos, quem era Luiz Tibireçá, onde nasceu ou qual era sua família. Entretanto, parece, pelos seus atos subsequentes tratar-se de uma pessoa de uma família bem situada socialmente, tanto é que foi nomeado coletor. Na época de sua nomeação, Luiz Tibireçá devia ser bem jovem e inconsequente, como mostraram seus atos. Era o início das atividades da nova província do Paraná.
Pouco antes, em dezembro de 1853, a antiga 5ª Comarca de São Paulo desmembrava-se e surgia a Província do Paraná. Quando o Baiano Zacarias de Gois e Vasconcellos, destacada figura da política imperial, subiu a serra para instalar Curitiba como capital da nova província, tudo estava sendo iniciado. O Conselheiro Zacarias demorou-se ali por pouco tempo, onde organizou minimamente os cargos e funções da nova província. Construir estradas, arrumar os portos, fazer as instituições funcionarem, foi esta sua tarefa. Assim, numa de suas penadas, Luiz Tibireçá foi nomeado coletor e também o agente dos correios na graciosa Villa de Antonina (ver aqui).
Num comunicado de janeiro de 1855, sabemos que ele era também o agente interino dos correios. O engenheiro Villalva, que iniciava os trabalhos de calçamento da Estrada da Graciosa, foi incumbido de entregar a Luiz Tibireçá duas mulas e uma cangalha, para transporte do correio entre Curitiba e Antonina (ver aqui).
Foi quando tudo entornou. A demissão de Luiz Tibireçá ocorreu em 29 de abril de 1855, pouco mais de um ano após sua nomeação (aqui). Pouco antes disso, nosso jovem coletor havia se apropriado de tudo o que tinha conseguido arrecadar dos impostos devidos a província e, como se dizia naquela época, tinha-se escafedido. Arre, que biltre!
Em matéria no jornal “O Dezenove de Dezembro” de 25 de abril de 1855, consta que Luiz Tibireçá, de posse dos impostos surrupiados da coletoria provincial, estava fugindo para o Rio da Prata (aqui). Era o caminho natural dos que faziam malfeitos, principalmente os pecuniários. Nos jornais e nas conversas, todos o davam como vivendo bem e feliz, seja em Montevidéu, seja em Buenos Aires.   À tripa forra, como se dizia na época.
No entanto, nosso meliante não havia ido assim tão longe. Dedicado a gastar o dinheiro em tão má hora adquirido, pôs-se a gastar em farras e divertimentos bem próximo de Antonina. Mais precisamente na Villa de Desterro, Capital da província de Santa Catarina.
E foi ali, na Ilha da Magia, que Luiz Tibireçá foi finalmente preso. Conduzido preso a Paranaguá e posteriormente à Curitiba, o sacripantas foi devidamente inquirido pelo doutor delegado sobre o dinheiro que havia se apropriado. Qual não foi a surpresa do nobre policial ao verificar que Luiz Tibireçá havia gasto “em dissipações, jogos, passeios e divertimentos” tudo o que havia roubado em Antonina (ver aqui). Nada, nem um mísero mil-réis havia sobrado! Ali mesmo Luiz Tibireçá foi incurso em diversos itens do código criminal, e remetido a julgamento em Paranaguá.
Para os que acreditam ser a justiça brasileira desde sempre muito morosa, aqui vai um espanto: seis meses depois, em 4 de janeiro de 1856 já estava concluído o processo de Luiz Tibireçá. Não conseguimos saber qual foi sua pena, em face dos documentos analisados. Sabemos, entretanto, que o larápio passou seus dias de apenado na cadeia de Paranaguá. Ali, em fevereiro de 1858, Luiz Tibiriçá faz um pedido para que sua mulher, Adelaide Ferreira da Silva Doria, pudesse permanecer com ele na cadeia. O pedido foi indeferido (ver aqui).  
Entretanto, nem tudo são espinhos na vida de nosso ex-coletor. Em fevereiro de 1863, ou seja, cerca de cinco anos depois, ele está vivendo muito provavelmente na bela Ponta Grossa, a Princesa dos Campos. Neste período, sabemos pelos jornais que Luiz Tibireçá é o 1º secretário da prestigiosa “Sociedade Patriótica Defensora da Nação” (ver aqui).  Nesta Sociedade, com outros cidadãos ilustres, ele assina um manifesto contra agentes britânicos, que faziam “represálias injustas” contra navios brasileiros ao longo de nossa costa. Logo ele!
Sabemos que fez sua carreira como advogado. Numa de suas lutas no tribunal, em janeiro de 1864, Luiz Tibireçá perdeu um caso. Como membro do Ministério Público de Ponta Grossa, ele não conseguiu a condenação de Maria Cecilia, acusada de furto (ver aqui). No entanto isto pouco valia. Tanto a defesa quanto a acusação fizeram, segundo a notícia do jornal, um debate que beirou o “sublime”.  Já em março de 1865, quando os bravos Voluntários da Pátria passam por Ponta Grossa indo juntar-se aos que já lutavam contra Solano Lopez, Luiz Tibireçá é um dos inflamados oradores (ver aqui). Em 1867, o escrivão Joaquim José de Camargo passa um certidão de bons antecedentes a nosso bom Luiz Tibireçá (ver aqui).
Nada mais sabemos deste interessante personagem. Vemos entretanto que ele conseguiu dar a volta por cima e ser um cidadão de bem e querido na nova comunidade que adotou. No entanto, parece importante reparar na pena relativamente branda para um homem branco e rico. E se ele fosse preto e pobre? Quanto tempo ficaria preso? Poderia pedir para que sua esposa ficasse com ele na cadeia?
A história de Luiz Tibireçá nos mostra, por outro lado, que pouco mudamos neste país. Continuamos a prender os pobres e a soltar os ricos. Nosso contingente de presidiários fala por si. Mesmo quando lidamos com causas como a corrupção política, pouco muda. Um presidente operário vale menos que um presidente advogado, mesmo que as provas contra um sejam duvidosas e contra o outro sejam materiais e comprovadas.
Luiz Tibireçá errou de século. Hoje, quem sabe, ele não pegaria uma prisão domiciliar? Ou nem isso?