sábado, 14 de abril de 2018

SONATA DE OUTONO


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tirei daqui
O dia está ensolarado. Um pouco de vento, e uns cirros no céu anunciam uma chuva para breve. Chuva que, por certo, não virá, ressecando o solo, as plantas e nossas vidas.  É nosso outono.

Ontem à noite fui surpreendido com a noticia do ataque americano (mais ingleses e franceses) em instalações na Síria, que supostamente abrigariam armas químicas. Fui dormir sem saber se acordaria num mundo conflagrado, já que havia promessa de resposta russa. O Armagedon pululuva nas redes sociais.

Hoje, já se sabe que, fora os danos de sempre, nada aconteceu de verdade. Algumas instalações sírias foram destruídas. Os russos protestam veementemente, mas não encostaram o dedo em seus próprios mísseis. Uma reclamação formal e uma proposta de reunião do Conselho de Segurança. O próprio Secretário-Geral condena o ataque. Aqui ao meu lado ouço o barulho das crianças da casa ao lado brincando na piscina.

Por curiosidade, deixo a televisão ligada na Al-Jazeera. De cara, vejo um debate entre um analista da Bloomberg e Glenn Greenwald, do Intercept. Debate duro. A mesma toda dos outros debates que vejo depois: por um lado uns acusam Trump de piorar o que já estava ruim, e ainda usando o argumento das armas químicas. O próprio Secretário-Geral da ONU Guterres disse que haviam técnicos no local prontos para investigar se ali haviam armas químicas. Do outro, a alegação de que era preciso combater armas químicas e os civis sírios.

Milhões de sírios estão dispersos hoje pelo mundo. Vivendo em acampamentos, tomando barcos frágeis sob controle de contrabandistas para fugir da guerra civil que já dura sete anos. E eles são quem tem que arcar com os custos em vidas e infraestrutura por cada ação militar, “cirúrgica” ou não, cometida em seu território, no intrincado xadrez que é a guerra civil lá deles.

Continuo vendo a al-Jazeera. Logo depois, um duro debate entre um representante palestino e um ex-ministro da justiça de Israel sobre os últimos acontecimentos em Gaza. Pelo que entendi, tropas israelenses e mesmo snipers foram usados para dispersar uma manifestação palestina na faixa de Gaza. Outro debate duro.

Fui cuidar da casa. Afinal, o mundo não vai acabar, e tenho coisas a fazer. Fico me lembrando do nosso quintal. Há uma semana Lula está preso em Curitiba. Um tribunal desses aí tirou o agora ex-governador Geraldo Alckmin da lista da Lava Jato. O entendimento é que o caixa dois não é crime, e tem que ser julgado na justiça criminal. Parece que a sangria vai sendo estancada. Com o Supremo, com tudo.

O mundo não vai acabar. Ao menos por enquanto. Tem muito louco à solta por aí, com poder para fazer isso acontecer. Aqui, ninguém sabe o que vai acontecer. Estamos longe de virar uma síria. Mas tem muito louco que gostaria de fazer isso acontecer em terras tupiniquins. Não seria difícil. Já temos uma guerra civil latente contra os pobres. As milícias já estão ocupando território, como nas guerras civis mais banais. Mas ninguém do lado de cá do “apartheid” em que vivemos pensa nisso a sério, como Marielle Franco pensou.

Um mês do assassinato de Marielle, e tudo vai se resumindo a notícias cada vez mais esparsas e cartazes desbotados nos corredores da universidade. Milhões de pessoas em todo mundo apoiam o bombardeio de Trump sem questionar. Na televisão, aberta, fechada ou por streaming, o que se vê são “famosos”. Nas redes sociais, podemos saber mais sobre eles: quem são? Como se reproduzem? A banalidade vai tornando tudo irreal, tudo borrado e apagado como uma folha de papel impressa que ficou na chuva.

O Armagedon de ontem à noite se dilui como as nuvens que vi no céu há pouco.  Uma amiga querida me corrige que a Al-Jazeera é igual ao nosso PIG, e que suas matérias sobre a guerra civil na síria são igualmente ridículas. Concordo. Acho que estou muito preso ao meu umbigo, sem procurar ver o que acontece no mundo, como fazia antes. Vamos lá, então. O outono está só começando.

domingo, 8 de abril de 2018

AS RIMAS DE ADEODATO


o bravo Adeodato, líder camponês do Contestado, preso em 1916
Em 14 de agosto de 1916 o jornal O Dia – órgão do Partido Republicano Catarinense informou sobre a chegada de Adeodato, o último grande líder da Revolta do Contestado, preso, à capital do estado.
Adeodato, ou Leodato, era um mulato de 29 anos. Tinha sido, nos últimos tempos da revolta do Contestado, o chefe do reduto de Taquaruçu. Neste reduto, onde viviam mais de 10 mil pessoas, o jovem Adeodato era o chefe incontestável.
De todas as lideranças do contestado, Adeodato era o primeiro grande chefe que não era beato. O movimento havia sido iniciado com a veneração a São Joao De Maria, um beato que percorrera a região no final do século XIX, tendo desaparecido sem que se soubesse seu destino.
Foi sucedido por São José de Maria, o beato Guerreiro, que havia pregado nos sertões de Santa Catarina. Havia separado seu povo escolhido, os pelados, que tinham sua cabeça raspada em sinal de devoção. Os pelados se contrapunham aos peludos, os outros, que representavam os grandes proprietários de terras, o governo, as grandes companhias ferroviárias.
São João de Maria morreu em combate em 1912, na batalha do Irani, quando os seu pelados derrotaram uma companhia da Policia Militar do Paraná, comandada pelo coronel João Gualberto. Joao Gualberto, tão valente quanto inconsequente, adentrou o acampamento matando mulheres e crianças, tendo sido detido pelos pelados, que destroçaram sua companhia em combate singular, matando João Gualberto a golpes de facão.
Adeodato comandou Taquaruçu, o último dos grandes redutos dos pelados entre 1915 a 1916, quando foi preso. Chefe camponês, Adeodato comandou o reduto com mãos de ferro, liquidando qualquer um que se opusesse a ele. O terror de Adeodato foi decisivo na unidade dos pelados nos últimos combates em Taquaruçu, em 1916. Por fim, o “Antônio Silvino do Contestado” foi preso e enviado para Florianópolis.
Adeodato foi julgado e condenado a 30 anos de prisão. No momento de sua sentença, uma testemunha ocular anotou as rimas que o réu declamou para o tribunal reunido e o público assistente. Em seus versos, repletos de ironias, Adeodato fez seu canto e sua defesa.

Adeodato zombou dos vencedores e expôs cruamente as agruras dos camponeses do Contestado, uma guerra que o Brasil (e o sul do Brasil, hoje tão conservador e reacionário) faz questão de esquecer:

Trinta ano vô cantá
Relatando as travessura
Que aqui neste processo
Acoumaro de diabrura
Me acusaro de mir morte
Que levei a sepultura
Mas levei aqui do mundo
Dei descanso às criatura

Nada disso acho crime
Ao contrário é bravura
Afastei aqui do mundo
Os que tinha vida dura
Bem por isso tô contente
De luta, nesta artura
Pra tira muitos cabocro
Das pobreza e das agrura

Sô iguar a picapau
Que qualquer madeira fura
Sô nas carta o Rei de Espada
Desaforo não atura
Sô quinem toro de briga
Por nadinha armo turra
Nego bão de minha raça
Não tem chão que se apura

Pra tirar os mar do mundo
Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo
A quem amo de ternura
Acabei com deiz mil pobre
Que livrei da escravatura
Liquidei todos faminto
 E os doente sem mais cura

Quem quisesse terra e escola
Eu lis dava uma surra
Ajudando os do governo
No recheio de suas burra
A pobreza pro inferno
Onde lá o diabo urra
Essa terra é de nos rico
Nossas veias são mais pura!

A pobreza que se enforque
E se enterre numa lura
Sendo pobre é oireiudo
Só os bobo é que zurra
Os que nasce bem esperto
Bom emprego eles percura
Quem é pobre nesse mundo
Só merece sepurtura

Bem agora me despeço
Só dos rico, com doçura
Tenho sombra e agua fresca
Na cadeia tem fartura
C´um abraço ao meu governo
Deixo a minha assinatura
Por Leodato M. Ramos
Arrespondo nessa artura

Adeodato foi um dos grandes líderes camponeses do Brasil, cuja memoria precisa ser lembrada. Este dados foram compilados do livro “Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916”, do professor Paulo Pinheiro machado da UFSC; .
A história completa pode ser encontrada em: Machado, Paulo Pinheiro. Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916. Vol. 17. Editora da UNICAMP, 2004.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

HÁ MUITA PRESSA NESSA NOITE


copiei daqui
Há muita pressa nessa noite. Há uma pressa em julgar e condenar. Que pressa é essa? Ao que parece, essa noite o confronto foi adiado. Amanhã, o desfecho.
Há também uma certa pressa neste desfecho. Que desfecho? O que acontecerá nesta bela manhã de 7 de abril? Na noite de amanhã muitos dormirão satisfeitos, achando que sua sede de vingança foi saciada. Muitos tripudiarão e escarnecerão de quem lutou gritou e esperneou, mas perdeu.
Quem perdeu? Quem ganhou? Essa não é uma resposta simples nesta fresca manhã de abril. Quem perde com uma justiça vingadora? Uma justiça vingadora que quer punir de qualquer jeito, é a melhor negação que existe de justiça. Justiça?
Há quem sonhe com justiça. Há quem sonhe com um mundo de bons e maus. Mas o que não vemos é que nosso mundo é um mundo de trabalho e capital, todos igualmente bons e maus, cada um à sua maneira. O que existe é um mundo de interesses. Uns mais outros menos mesquinhos. Todos igualmente bons e igualmente maus, dependendo de como se olha.
O mundo não é simples. Nem comporta mocinhos e bandidos. É um mundo de interesses. Capital quer o trabalho de quem não tem capital. O trabalho quer trabalhar e arrancar uma migalha do capital. O capital não gosta do trabalho: é feio, sujo, imundo, fala mal. O trabalho também não gosta do capital, mas tolera seu salário mensal.
Há muita pressa nessa noite. O capital tem pressa (Tempo é dinheiro!). Precisamos tirar tudo do trabalho: sua voz, seu líder, sua inspiração, sua moral. Parece que não há garantias para quem defendo o trabalho. O próprio trabalho parece hesitante, em sua luta contra o capital.
Nesta noite, alguns dormem. Outros, fazem vigília. Outros pensam que fazem o certo, o bom, o moral. São anjos, são puros, balança na mão e espada na outra. A procuração de Deus no elástico da cueca. Anjos de cueca no reino do capital.  
Há muita pressa. Há pouca justiça. Há o trabalho. E há o capital.  

domingo, 1 de abril de 2018

UM PRIMEIRO DE ABRIL CONTRA A MENTIRA



Hoje é primeiro de abril e domingo de Páscoa. Qualquer coisa que seja dita hoje pode cair na brincadeira de 1° de abril. Aliás, estamos numa época em que parece que todo dia é primeiro de abril. As disputas ferozes de narrativas que temos visto no mundo todo nestes últimos anos pelo menos estão colocando-nos todos numa situação muito complicada.
Eu sinceramente acho que tudo isso começa com a crise do subprime em 2008. Desde lá, como na crise de 1929, as economias centrais e as periféricas começaram a patinar. As pessoas, a se desentender. O preço de diversas mercadorias (eu ia dizer commodity, mas fiquei com vergonha...) começaram a despencar. Com isso, varias economias baseadas na exportação de produtos primários acaba sofrendo. Mas enfim, não sou economista pra dizer isso com todas as letras.
Por outro lado, temos uma narrativa política a ser debatida. Foi Golpe ou foi impeachment? Tecnicamente, foi um impeachment, tudo dentro da lei. Certo? Sim, foi dentro da Lei. Mas todo impeachment não é sobre crimes, é sobre política. O impeachment de Dilma Rousseff foi político. No entanto, a razão subjacente era outra: tinha-se que, nas palavras imortalizadas por Romero Jucá, “estancar a sangria”. Sangria do que? Da lava jato. Livrar os políticos envolvidos nas investigações com um “grande acordo”, ainda nas imorredouras palavras de Jucá, “com Supremo, com tudo”. Uma vez que era político, era preciso interpretar a lei até o seu limite, porem sem torcer demais. Como lavar roupa de seda.
Por tudo isso, o impeachment de Dilma foi uma farsa. Para a jornalista do New York Times, Amanda Staub, que não é comunista nem trabalha para um jornal comunista, dizer que o medo da lava jato dá “às elites políticas [brasileiras] um meio e um incentivo para expor seus rivais, sabendo que isso provavelmente os arruinará”. Por isso a felicidade com que os deputados e depois os senadores participaram daquela votação grotesca de maio e depois de agosto. Lembram?
Mas hoje é primeiro de abril. Há 54 anos atrás teve inicio o golpe que levou os militares ao poder no Brasil. Com a polarização que temos neste momento, vejo muitos posts louvando a Ditadura e tentando mesmo mudar a narrativa. Inúmeras fake news são postadas a todo momento para reforçar isso. O levantamento das postagens após a morte da vereadora Marielle Franco mostrou que se trata de um grupo minoritário, menos de 7%. Mas isso não quer dizer que não seja importante. E preocupante.
A rapidez com que as pessoas se apegam as noticias falsas é uma coisa preocupante. Numa entrevista recente ao jornal El Pais, o ciberengenherio Christopher Wylie expos alguns fatos ligados ao recente escândalo da Cambridge Analytica (veja mais sobre o escândalo aqui), que trabalhou nas eleições de Trump e do Brexit. Ele afirma cabalmente que houve trapaça, que houve distribuição de notícias falsas para enganar os eleitores.
A Cambridge Analytica atuava, por exemplo, identificando nas redes sociais pessoas suscetíveis a cair em teorias conspiratórias. A partir daí, segundo Christopher Wylie,você fabrica blogs ou sites que parecem notícias e os mostra o tempo todo às pessoas mais receptivas a esse pensamento conspiratório”. Estas pessoas começam a replicar este conteúdo e não acreditam nas noticias veiculadas pelos jornais sérios. Segundo ele, aconteceu nos Estados Unidos com uma notícia que Obama estaria enviando tropas para o Texas porque ele não deixaria o governo. A noticia era falsa, mas criou uma comoção tremenda. Assim vão manipulando as pessoas.
A  manipulação no Brasil já está acontecendo. Há anos, como o caso do Lulinha ser o dono da Friboi. Muita gente “de bem” acreditou.  Foi bem claro no episódio da morte de Marielle Franco. Na semana seguinte, com os tiros à caravana de Lula, as noticias falsas pulularam. Paginas do facebook foram tiradas do ar por propagar noticias falsas e calunias. A tal desembargadora de ideias racistas e homofóbicas vai sofrer processo. Mas os robozinhos continuam. Movimentos como o MBL continuam a propagar mentiras.
As pessoas não percebem isso? Não, e por um motivo muito simples: os robozinhos dão o que eles querem receber. Alimentam com notícias que falsas, mas que comprovam uma ideia que a pessoa já tem. E o ciclo da ignorância se fecha. O círculo da ignorância só beneficia o fascismo que está no ar, denso como uma fumaça tóxica.
Neste primeiro de abril precisamos paradoxalmente estar alertas para a mentira.

sexta-feira, 16 de março de 2018

ODE PARA MARIELLE



Marielle era mulher e negra a foi assassinada anteontem. Centenas de negros são assassinados no Brasil todos os dias. Muitos destes negros e negras assassinados eram policiais. Muitos cidadãos negros, muitos outros, mas que não são nem policiais nem soldados, são assassinados todos os dias.
Marielle era mulher e negra e vereadora. Foi eleita com 65.000 votos. Marielle não era só uma mulher negra: era uma delegada do povo. Ela representava milhares de pessoas, muitas pessoas mais que as que votaram nela. Marielle era um símbolo.
Marielle era negra e pobre. No entanto, venceu essas dificuldades, tornou-se socióloga, tornou-se militante. Em sua militância, conseguiu apoios e foi eleita vereadora. Uma vereadora dos pobres. Marielle era uma lutadora.
Mariele era vereadora e negra. Lutava pelos seus, os da Maré, da Rocinha, de Acari. Denunciava a morte de negros pela polícia. Denunciava a morte de policiais pelas milícias. Ajudava as famílias dos atingidos pela violência, sem distinção. Lutava contra a invasão das casas das pessoas sem mandado, contra a intervenção de Temer. Marielle era um alvo.
Marielle era vereadora e negra e mulher. Foi executada depois de denunciar as mortes que estavam ocorrendo sob a intervenção. Dois homens, cinco tiros, queima roupa. Coisa de gente que sabe do assunto. Marielle não é mais.
Marielle é uma, Marielle é muitas. Marielle é milhões.  Juntas as Marielles, de um lado e de outro da vida. A Marielle vereadora, a Marielle militante, a Marielle mulher, a Marielle lutadora. Marielle é mais.
Juntas as Marielles. Gritam seus gritos de dor e esperança. A Maré vai mudar. Marielle é um simbolo, um alvo. Marielle é mais.
Gritem todos que os direitos humanos só servem pra bandido. Quando a policia invadir sua casa, lembrem-se de Marielle.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O SUICIDA



No ano de 1930 apareceu na firma J. Cordeiro um rapaz com aparência de seus 21 anos, à procura de serviço.
Foi o mesmo atendido em sua solicitação começando a trabalhar no armazém de serviços de descarga de vagões e carregamentos de lanchas, no que deu-se bem.
Logo no início, já de camaradagem com os demais trabalhadores, ficamos sabendo ser filho de bugre. Todos o conheciam pelo nome de Xixipe.
O rapaz logo se enamorou por uma tal Maria Louquinha, que morava na zona do Portinho. E não trabalhava mais, só pensando na sua amada.
Num domingo o mesmo encontrou a sua namorada com um Don Juan, na fonte da Carioca. Ficou muito triste, contou aos companheiros o que tinha acontecido, e disse que ia suicidar-se.
Os seus colegas, conhecendo a Maria Louquinha, começaram a rir.
O rapaz dirigiu-se à Ponte Bandeira Ribas, dizendo que ia suicidar-se mesmo. Os seus colegas ficaram surpresos ante a sua atitude e esperavam o trágico desfecho, quando o mesmo chega a cabeceira da ponte e senta-se.
O tempo formava-se, roncos de trovões, e não demorou muito cai um forte aguaceiro. O rapaz levantou-se e retornou ao armazém.
Quando o mesmo chegou ao armazém, o José Soares, seu colega de serviço o interrogou sobre sua atitude de suicidar-se, ao que o mesmo respondeu:
“a chuva está muito forte, e a maré muito cheia”.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

DORMINDO NO QUARTEL


Vista panorâmica do 6° RI, em Caçapava, onde os escoteiros pernoitaram

Não se pode dormir sossegado à beira de uma grande estrada, como a que atravessava o Vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro. Os escoteiros souberam disso bem cedo. Para ser mais exato, as 6 da manhã. Por ali circulavam os caminhões que levavam leite para a Indústria de Laticínios de Campos do Jordão. Havia também outras grandes indústrias de laticínios, como a Vigor e a Armour.
Como registra Lydio em seu diário, pelo menos leite nunca faltou nesta etapa da viagem. Frequentemente, os produtores lhes davam litros e mais litros de leite, que eles bebiam com o entusiasmo de bezerrinhos.
Naquele dia, entretanto, eles haviam caminhado sem descanso até umas onze horas. Era preciso, para recuperar o tempo perdido. Cansados e com fome, eles perguntaram pela comida ao chefe Beto. Chefe Beto respondeu-lhes que havia sobra do só um pouco de comida, mas ela era só para ele: "Cada um por si e Deus por todos”, acrescentou.
Dito isso, ele pegou um belo sanduiche de presunto e queijo e um resto de leite e começou a saboreá-lo na frente dos outros. Para os outros, só havia leite. E foi o que eles almoçaram.
Lydio comenta que estava anotando isso em seu diário para que todos possam sabe que a viagem deles não foi um mar de rosas. Em alguns momentos, a vontade de jogar tudo para cima e desistir eram muito grandes. Entretanto, não se sabe como, “só o esforço hercúleo e a união dos quatro”, desiludidos pela falta de consideração do Chefe Beto, “é que garantiu o sucesso da missão”. Mas isso era somente a metade do dia.
Logo logo uma grande duma chuva os apanhou no descampado, obrigando-os a se socorrerem numa choupana abandonada. Ficaram ali um tempo, esperando a chuva passar. Quando passou, retomaram o caminho em direção a Caçapava.
As três e meia da tarde passaram pela vilinha de Eugenio de Melo, que Lydio notou ter somente “umas vinte casas e uma igreja católica”. Ali, pararam numa vendinha e se fartaram de comer biscoitos e pão com queijo e mortadela. Chegaram ao luxo de tomar um guaraná cada um.
Á tardinha chegaram em Caçapava, lá, tinham destino certo: o quartel do 6° Regimento de Infantaria. O 6° RI era uma das mais antigas e famosas unidades do exercito brasileiro. Estava em Caçapava desde 1919, mas a unidade já havia participado da guerra do Paraguai. Entre 1915-16, foi mobilizado na repressão á rebelião do contestado. No ano seguinte, em 1943, o 6° RI, juntamente com o 11° RI de São João Del Rei foi parte da FEB, tendo participado de praticamente toda a campanha italiana. Mas isso é futuro.
Neste dia, os chanceleres discutiam se ficariam neutros ou se alinhariam com os Estados Unidos. O governo Vargas, tendo garantido a siderúrgica de Volta redonda com dinheiro americano, já sabia que lado tomar. Lá na Europa, era mais um dia de ocupação alemã. No Japão, tropas australianas tentavam impedir o avanço japonês.
Em 17 de janeiro de 1942 os escoteiros foram alojados no 6° RI de Caçapava, onde só deu tempo de largar as tralhas no alojamento e subir rápido para pegar a boia. Depois, de banho tomado, foram levados por um suboficial a conhecer Caçapava.
Lá, eles visitaram a Radio Sociedade de Caçapava e o Caçapava Tênis Clube. Lá, tinha um sarau dançante, mas Milton, Manduca e Canário, cansados, voltaram ao quartel. Lydio e Beto ainda tiveram forças para ir ao cinema. Lá, segundo Lydio, viram o seriado “besouro Verde” e depois um filme policial.
Quando voltaram para o quartel ainda tiveram tempo de ouvir no radio o final de Brasil e Argentina pela Taça Sul-americana. A argentina ganhou, mas os meninos ficaram felizes ao saber que Caju, o grande goleiro atleticano e da seleção fora a grande sensação da partida.
A chuva ainda caia lá fora, e fazia frio. Os meninos, dessa vez bem protegidos, puxaram as cobertas e dormiram;



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FAZER AS PAZES NO VALE DO PARAIBA



Vista aérea de Jacareí e do Rio Paraíba do Sul em 1940, pouco antes dos escoteiros de Antonina passarem por ali. 
As sete horas da manhã, os escoteiros acordaram com os apitos da Maria Fumaça. Aquele dia, eles dormiram na cadeia de Jacareí, hospedados pelo delegado Clodoaldo de Abreu. Clodoaldo, que era irmão do comerciante antoninense Leopoldino de Abreu, havia recebido os meninos com a cordialidade de conterrâneos que se encontram no estrangeiro. Oferecera-lhes um rancho reforçado e deixara que estendessem as roupas molhadas no varal da cadeia. Não devia estar muito cheia a cadeia de Jacareí nesta quente sexta feira de janeiro de 1942.
Neste mesmo dia, os jornais do Rio de Janeiro noticiavam o início de uma ampla ofensiva Soviética na Ucrânia. Os japoneses ameaçavam Singapura, na Ásia. Mas a maior noticia da guerra, no entanto, era ali no Rio. Chanceleres de praticamente todos os países americanos estavam reunidos na capital federal, para discutir solidariedade internacional e repudio ao ataque japonês recém sofrido pelos Estados Unidos na base naval de Pearl Harbour, no Havaí.  
A III Conferencia de Chanceleres dos países americanos no Rio de janeiro em janeiro de 1942 significou um alinhamento da maior parte dos países à causa aliada. A partir daí a beligerância iria aumentar, bem com o ataque de submarinos alemães a navios brasileiros, forçando Getúlio Vargas a declarar guerra aos países do Eixo em agosto de 1942.
Enquanto isso, ali na delegacia de Jacareí, os meninos tomaram rapidamente o seu café. Logo, se puseram na estrada. Ao meio dia, pararam na localidade de Rio Comprido, próximo a São José dos Campos, onde lancharam café com leite, pão e ovos fritos. Lydio anotou em seu diário que essas despesas foram da ordem de 7.500 réis.
Logo depois, morrendo de calor, atravessaram um pequeno córrego e passaram por um pequeno aglomerado de casas chamado Vila Ema, onde ganharam alguns abacaxis, prontamente devorados. Continuaram subindo o morro até São José dos Campos.  Atravessarem rapidamente a cidadezinha e acamparam a uns 4 km adiante, num pequeno campinho.
Fazia trinta dias que os bravos escoteiros haviam saído de Antonina, em sua marcha rumo ao Rio de Janeiro. Era um momento de celebração no meio da viagem. A barraca foi armada e a fogueira acesa.
O “banquete” constou de peixe seco, farinha de milho, arroz e café com leite, acompanhado de pães quentes. Essa estranha mistura foi acompanhada de uma intensa discussão sobre os planos vindouros e para apagar os desentendimentos do passado recente.
Havia poucos dias, na altura de Guararema, o desentendimento entre os quatro meninos e o chefe Beto havia posto a missão em risco. Houve um estranhamento, eles se separaram, mas depois voltaram a se encontrar. Havia magoas a serem postas de lado. E, conta Lydio, foi o que fizeram. dali a pouco estavam contando piadas e rindo, despreocupados.
Aquele era um momento difícil na historia da humanidade. Ao longe, milhões morriam nos campos de combate e nas cidades conflagradas. O Brasil vivia um momento de apreensão em saber para qual lado penderia nesta guerra. Lá longe, na pequena Antonina, suas famílias estavam apreensivas com o que estava acontecendo com os cinco rapazes.
Afastado o desentendimento, eles estavam bem. Lydio conta em seu diário que tirou sua gaita de boca do bolso e todos começaram a cantar as marchinhas do carnaval daquele ano. Quase todos sabiam de cor todas as letras, pois eles as ouviam com frequência no rádio. Um pouco mais longe, sentado num toco de madeira, chefe Beto cachimbava.
Ao anoitecer, cada um procurou se aconchegar num canto da barraca e dormiram o sono dos cansados.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ANTONINA CRIA...E O MUNDO COPIA (2)


A Ponta da Pita no final do Paleolítico Superior, onde a roda foi inventada por Barreano em 500 adC (antes de Carcanha)
 Para Neuton Pires

A genialidade antoninense dispensa apresentações. Aqui, entre a ilha do Teixeira e o pico Paraná, surgiu muita coisa essencial para a humanidade. Entretanto, a falta de jeito antoninense também dispensa apresentações. Assim como o barreado, que foi criado aqui e copiado em Morretes e em Paranaguá, muitas outras coisas criadas na baia de Guarapirocaba foram lamentavelmente copiadas alhures.
Os filhos da Deitada-a-beira-do-mar, por um motivo inexplicável, sempre foram passados pra trás por pessoas inescrupulosas, que ganharam dinheiro e glória com estes inventos geniais. E nós ficamos sem a fama. E sem a bufunfa.
Mas isso pouco importa. Tendo farinha e um peixe, uma cerveja gelada, deixe a fama e a grana lá pra eles. Não é assim? Como o pirão, dinheiro e glória também passam.

Uma das mais antigas invenções antoninenses foi, sem sombra de dúvida, a roda. Sim, a roda, qual o espanto? A roda foi inventada em Antonina.
A roda foi inventada por Barreano nos idos de 500 adC (Antes de Carcanha). Sua inspiração original foi ver um bebum rolando no chão após uma caranguejada no sambaqui do Godo. No entanto, a vida que seguia. Barreano demorou mais outros 500 anos pra colocar a ideia em prática...dava muito trabalho.

Durante os experimentos que levaram a criação final da roda, Barreano verificou que o processo original, usando pessoas, era uma tonteira só. A Turma do Litro, observando os experimentos ali perto do trapiche, disse diversas vezes para Barreano que aquela era uma invenção sem futuro. Afinal, o goró dá menos trabalho pra tontear, com uma relação custo-benefício mais rápida.

Mas Barreano não desistiu. Continuou pesquisando. Alguns dizem que contou com ajuda de pesquisadores da UNICAMP, mas isso é pura especulação. Trabalhando sozinho, sem apoio da FAPESP, Barreano levou mais 500 anos para se perceber que troncos eram mais apropriados. E mais 500 anos pra se aperceber que cortando os troncos dava mais resultado.

Quando a coisa estava quase pronta, Barreano ficou feliz: havia inventado a roda! Ele ainda não sabia muito bem pra que servia. só sabia que tinha dado um trabalho danado. Mais do que estava acostumado. Então, merecendo um descanso, ele foi comemorar a sua genial invenção com uma caranguejada no Sambaqui da Ponta da Pita.

No entanto, alguns homens de Neandertal, de passagem pelo trapiche municipal, que naquela época estava estragado, prestaram muita atenção nos experimentos de Barreano. Quando ele saiu pra comemorar, eles furtivamente pegaram um exemplar da roda e saíram de fininho.

Cerca de 500 anos depois, quando Barreano voltou da caranguejada, viu que sua invenção já havia sido roubada, aperfeiçoada e patenteada pelos homens de Neandertal. Tentou protestar, mas a Turma do Litro, ali do lado, deu risada de sua cara: “Não falamos que isso não ia dar certo, Barreano? Tava na cara! Inventar a roda? Vê se pode... Coisa mais inútil... Dá uma bicada aqui, na mardita”.

E assim se passaram mais 500 anos.


(mais uma crônica cronicamente antiga (2009?), repaginada)

domingo, 7 de janeiro de 2018

O BAGRE E O CELACANTO


tirei daqui

Para Salvador Picanço (1934-2008)




O celacanto é uma espécie de peixe que se supunha extinta há muito tempo, desde o cretáceo, há 65 milhões de anos atrás. Até ser pescado na costa da África do Sul, em 1938, acreditava-se que era somente um fóssil, atulhando prateleiras de museus de paleontologia. Hoje, sabe-se, ainda existem celacantos nos mares. Poucos, mas existem, como que pra contrariar a evolução das espécies, pra nos contrariar.

A mesma coisa se diz dos políticos honestos. O senso comum diz que eles não existem. Pra nos contrariar, os políticos honestos, como os celacantos, fazem suas aparições aqui e ali. Por estes dias, lamentou-se a perda do senador Jefferson Peres (PDT-AM), tido como um dos celacantos do congresso nacional. Sua defesa da ética e da honestidade, num oceano de pragmatismos partidários, dossiês e caixas-dois, foi como um delicado agitar de barbatanas sacudindo o imenso oceano. Entretanto, como dizia um bem-humorado grafitti dos muros de Sampa, no final dos anos 70, celacanto provoca maremoto. Quem sabe se ainda não teremos algum tsunami de ética agitando o lodo destes nossos mares?

Entre nós, bagres, sempre houve e haverá celacantos, embora os baiacus sempre pareçam mais numerosos. Conheci um destes celacantos bem de perto: Dodô Picanço. Com sua aparição na política antoninense, no início dos anos 70, ele foi um fenômeno, como bem prova sua votação pra vereador em 1972. Entre 1970 e 1976, sua presença dotou Antonina de inúmeras conquistas, como a restaurações das igrejas históricas, inúmeras agitações, como a Expoteira, e uma marcante atuação no legislativo municipal, numa época em que não havia salário pra motivar nossos vereadores.

Eu era muito piá nesta época, mas lembro dos comentários dele sobre as dificuldades de trazer recursos para a cidade naquela época de início de vacas magras. Lembro, também, da quantidade de “aspones” de deputados que apareciam em nossa casa com propostas indecorosas, e que ele os enxotou a todos. Diziam que era mão-de-vaca. Nunca vi ninguém tão generoso. Nunca fez muita questão de dinheiro. Era um político que mais gastou que ganhou dinheiro na política. Bicho raro. Celacanto.

Em casa, vivemos sempre modestamente, com seus recursos de funcionário público. Seu tempo e suas energias, ele os gastava com sua Antonina, com os escoteiros, com os seus bichos na chácara. Tirava, do dinheiro de sua aposentadoria, os recursos pra financiar esta sua ultima e quixotesca campanha para a Prefeitura. Até o fim, ele acreditava poder ajudar, poder fazer a diferença, poder fazer a cidade que ele amava sair da lama.

As pessoas de bem tem nojo de política, ódio dos políticos, e não as culpo. A maior parte deles merece nosso desdém. Só que, em nossa sociedade, quem os coloca lá somos nós. Eles são nossa cara, portanto. A política é a arte do possível, e nenhum político, sozinho, conseguirá nos levar ao paraíso. Esse caminho é coletivo.

Não sei se estamos melhores ou piores nos tempos que correm. Sei que precisamos de celacantos. Que eles existem, existem. Precisam é sair das tocas, agitar esse lodo, mostrar pras pessoas que seriedade e ética existem.  Eu sei que eles existem, eu já vi um celacanto bem de perto. Celacanto provoca maremoto.


(Este texto de 2008 é um texto que, aos meus olhos de hoje, é bastante ingênuo. Em tempos de Lava-jato, essas noções de decência e honestidade estão bem mais complicadas. Parace uma outra época e um outro mundo. O que fica é a lembrança de meu pai, que hoje faria 84 anos. Falei sobre isso outras vezes, aqui e aqui.)

Saudades, seu Dodô!




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ANTONINA CRIA...E O MUNDO COPIA (1)



Todos sabem da genialidade antoninense. Nesta formosa baía, que foi um presente do mar, foram engendradas algumas das mais importantes invenções da humanidade. Embora a humanidade não tenha sido avisada, claro está.

Dessa vez, nossas pesquisas apontam para mais um invento genial de um bagrinho também genial e que estão na base de nossa vida cotidiana. Falo do computador pessoal e da linguagem binária, criados em Antonina no final dos anos 70 por ninguém mais ninguém menos que Rellen Salu Berght.

Compositor genial, digno filho de uma terra de tantos compositores, o pequeno e esguio Rellen, vulgo Ratete, sempre foi acima da média. O que poucos sabem é que Rellen além de seus dotes de músico, também tinha um talento matemático e mecânico invulgares para sua época. Um talento desses que só surgem na Deitada-a-beira-do-mar, evidente.

Rellen então procurava uma máquina que fizesse o samba-enredo perfeito para o carnaval. Depois de muito queimar as pestanas, ele combinou uma televisão velha Philco e uma maquina de escrever Olivetti e juntou as duas numa geringonça só. Para compor os sambas, Rellen bolou uma linguagem matemática que pudesse representar o batuque de nossas escolas de samba. Mas afinal, o que seria essa linguagem matemática próxima do batuque?

Genial como sempre foi, Rellen associou o batuque a um padrão numérico. O um para a batida do surdo e o zero para o tempo, combinando várias seqüências com as ordens 01010101010. Essa, segundo Rellen, era a linguagem dos batuques. Esse processo demorou vários anos, até que, em 1982, Rellen chegou à perfeição. A máquina começou a suar e bufar, apitando e se agitando freneticamente. Na tela da tevê, acoplada a maquina de escrever, começou a surgir uma composição e uma melodia: “Sonhei que era carnaval, festa do povo/ Que bom seria...”.

Rellen correu para mostrar a todos o resultado de seu invento. Cabeça avoada que sempre foi, esqueceu a máquina ligada e a porta aberta. Por ali, nesse instante, passavam dois gringos, dois jovens nerds que foram mandados pelos pais para o Brasil para se divertirem e relaxar, pois não sabiam nada da vida. Dois babacões, que não sabiam pegar mulher, mas sabiam tudo de matemática e mecânica. William Gates e Steve Jobs eram seus nomes.

Estupefatos com a máquina que estavam vendo, os dois copiaram rapidamente os manuscritos de Rellen deixados em cima da mesa. E traduziram a linguagem dos batuques por “baituques”, cujo nome depois seria simplificado para bites. E deram no pé com os manuscritos, enquanto Rellen, vestido de conde, cantava sua glória na avenida do samba.

E o resto da história todos já sabem.  

(texto publicado primeiramente aqui)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CHICA GARIMPEIRA

Chica Garimpeira na entrada de uma boca de lavra/2008

Estes dias estive visitando umas áreas de Francisca Alves Barroso, a Chica Garimpeira. Num universo masculino como é o universo garimpeiro, uma mulher como Chica, dona de draga na lavra do Vermelho durante muitos anos, é um fato impressionante.
Separada, trabalhou em frigoríficos, casas de família, em lojas. Tinha três filhos pra criar. Um dia, um tio a chamou pra ir trabalhar com ele numa draga no Crixás. Ela foi e nunca mais saiu deste universo. Veio para Cavalcante (GO) e, nas barrancas do Vermelho e do Tocantins, criou seus filhos e comprou seu pedaço de chão. Foi garimpeira e professora municipal.
Em 2003, com as obras da barragem, perde a draga e a área de garimpo. Até a escola onde dava aula foi inundada. Entra no movimento dos atingidos por barragens, o MAB, e vira uma ativa liderança local. Ganha 10 mil reais de indenização. “Mixaria”, diz, revoltada. Questões por posse de terra com vizinhos já levaram, segundo ela, um neto e um sobrinho. Diz que não quer vingança, e que Deus proverá. “Aqui se faz, aqui se paga”, arremata.


E lá vai ela. Andando firme pelo cerrado, subindo e descendo morro, de chinelo de dedo e uma bolsa feminina no braço, vai me mostrando as áreas que quer negociar. “O que é? pra que que serve? Tem utilidade?“ Tudo tem que ter utilidade na vida de Chica Garimpeira. Tem que botar o feijão na mesa, tem que criar os filhos e netos. A filha mais velha mora em Londres. Chica tem pressa, muita fé em Deus e muito ódio no coração para com os assassinos de seus meninos. Hoje, com o tempo e os filhos já criados, ela quer sossego, um pedaço de terra e muito trabalho de roça pra fazer. Que pessoa impressionante essa Chica Garimpeira...

(essa é uma crônica de 2008, quando eu trabalhava Com exploração Mineral em Goiás) Ver aqui

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - ROMARIA (4)


A basílica de Aparecida; minha romaria chegou até lá!
Em meio à correria que foi minha permanência nas obras do duto Atibaia-Taubaté, consegui fazer algumas coisas interessantes. Conheci um pouco mais o vale do Paraíba, e percebi que estava perto de alguns lugares chave de nossa historia e de nossa cultura.

Tive o privilegio de trabalhar nas margens do rio Buquira. Ora pois, houve um cidadão que, tendo uma fazenda nas margens deste rio, meditou muito sobre os problemas da agricultura, do homem e do Brasil, que foi exatamente Jose Bento Monteiro Lobato.
Em Caçapava, visitei o museu do 6º RI, um dos pilares da antiga FEB, responsável sozinho pela captura da 148ª divisão alemã, já no fim da guerra. Com meu amor, visitei campos do Jordão, e conheci um pouco da cidade, a flor da serra da Mantiqueira.
E principalmente, conheci Aparecida. Eu achei que nunca fosse fazer uma peregrinação a aparecida. Mas fui indo, indo e no final estava lá eu, andando pelas naves da imensa basílica, vendo as pessoas colocando velas e fazendo preces. Claro, como xodó de igreja velha que sou, preferi mil vezes a basílica velha, que está sendo reformada.
Lá dentro, me encantei com a imagem da santa, com os desenhos, com a história, com a arquitetura. Mas me encantei mais com as pessoas e sua fé. Você via a fé das pessoas. Você via pelo rosto das pessoas o seu desejo de estar em comunhão com o divino.
Vi um senhor, meio velhinho, que estava lá com a família. Ele se foi chegando pra perto do altar, tímido, passo por passo, temeroso. Perto do altar, ele começou a fazer algo como se fosse uma oração em silencio. Era nítido que ele estava pedindo alguma coisa ao divino. E era bonito de ver, no meio de todo aquele seu maljeito, que ele conseguiu: na volta pra encontrar a mulher os filhos e os netos, o rosto dele era só luz.
Me comovi tanto, que também rezei. Rezei uma reza meio tatibitate, de quem não tem jeito pra coisa. Rezei por mim, por ti, por nós. Talvez, como na musica, já que não sabia mais rezar, o certo era só mostrar meu olhar, como o velhinho que havia visto fazia pouco. Mas já estava bom.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OS VERMES FELIZES


tirei daqui
As chuvas estão cada vez mais intensas. Os temporais se avolumam, felizmente sem muito vento. Faz até um tempo mais fresco e agradável. No interior de Goiás, quando esse tempo começava, o pessoal dizia, com o acento característico: “invernô baum”.
O solo ainda não está encharcado, e as frutas “da água” começam a dar suas flores: nosso pé de acerola já começou a dar umas florzinhas tímidas e azuladas. Os passarinhos felizes saem a procurar alimento. Pardais vasculham a grama a procura de minhocas.
Os insetos zunem felizes com o calor e a umidade. Ficamos preocupados com os mosquitos: já houve um caso de chukungunha no bairro. Potes, vasos e utensílios domésticos devem ser virados pra baixo, pra não deixar a agua acumular.
De todos os animais do jardim, os mais felizes, entretanto, são os vermes da composteira. Cada vez que vou jogar alguma coisa por lá eu vejo que eles aumentaram em quantidade. Eles vivem numa superabundância. O calor, a umidade e a oferta contínua de alimento fazem vermes gordos e felizes. Restos de mangas e coisas moles e doces são as primeiras coisas a serem atacadas. É uma comilança feliz.
Estes dias, ao voltar da composteira, pensei nos projetos do governo golpista. O paralelo é claro. Estamos num momento em que tudo é feito com a maior desfaçatez. Milhões são aprovados em renúncias fiscais, em liberação de verbas parlamentares, em distribuição de cargos. Tudo em superabundância, como os vermes da composteira.
Nós, do outro lado, estamos em contenção de despesas, contingenciamento, penúria e escassez. Sem falar dos milhões de desempregados. A chuva e o calor ainda não chegaram.
Os vermes felizes e protegidos. Semana passada, ao tomar posse, o superintendente da Policia Federal fez um discurso obsceno sobre malas e provas. Mas ninguém prestou atenção. No máximo, umas figurinhas de “grr” no facebook.
Índios e pequenos posseiros continuam ameaçados por grileiros e capangas dos fazendeiros. Não há mais proteção, não há mais pudor. O sangue escorre dos grotões.
Nas cidades, pipocam aqui e ali os projetos da grife “Escola sem partido”. Com o discurso da moralidade, a censura ameaça as escolas e os professores. Só falta começar abertamente a caça às bruxas.
Faz calor, o mormaço se instala. O ar fica mais “pesado”, os insetos se agitam. O céu escurece. Vai chover. Os vermes, felizes, prosseguem sua faina de comer e comer e comer.
Parece que nada detém os vermes. As pessoas que diziam combater a corrupção estão felizes. O governo popular que os incomodava está por ora afastado. Os deputados e o presidente golpista estão perto de cercear a Policia Federal: uma mala cheia de dinheiro não prova nada.
Os tais dos meninos liberais estão assumindo sua cara de ogro e provando que o liberalismo brasileiro não é tão liberal assim. Os liberais de 64 aplaudiram a deposição de João Goulart, assim como os liberais da República Velha eram coronéis mandões e os do império não se opuseram a principio contra a escravidão. A perseguição moralista e censuradora que os jovens liberais fazem aos artistas e à liberdade artística está de acordo com as ideias autoritárias dos que querem a volta do autoritarismo militar. Tudo certo.
Os vermes continuam. A “suruba” dos vermes não para.
A primavera se desmancha em calor e umidade. Nuvens negras passeiam livremente pelo céu. Céu roxo, cinza chumbo, como diria o poeta. O pais assiste mudo à catástrofe que se aproxima.
Vamos permitir?
Os vermes – e só os vermes – estão felizes.