sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FINADOS


Hoje é, segundo a tradição, o dia dos mortos. Depois de uma semana muito quente, com temperaturas chegando a 37º C, o dia por aqui amanheceu nublado e com certa garoa. O típico dia de Finados. Se aqui está assim, imagino a bela Deitada-a-beira-do-mar, com sua bruma matinal e sua garoa insistente.
Faz muito tempo que larguei fora as tradições, assim como boa parte dos ensinamentos que tive, meio a contragosto, ali no alto da colina de N.S. do Pilar. Mas hoje, talvez pela tradição, talvez pelo tempo ameno e chuvoso, me pus a pensar nos meus mortos queridos. Meu pai, meus avós, meu tio Milton e minha tia Vilma. Meu amigo Eder, falecido prematuramente um ano antes de sua formatura, aos 22 anos. O bom e generoso Moacir Santos, mestre Muassa, um dos maiores geólogos que já conheci. Dona Laura, a alegre e doce dona Laura, a rir e achar tudo “ótimo”. Quanta gente querida brota dos pensamentos...
Percebo no ar certa vacuidade, um vazio, uma certa melancolia, a lembrar meus entes queridos. Saudades, esse é o sentimento que vem com a tal palavra que só se diz em português, em bom português.
Sinto muitas saudades de meu pai. Lembro que ele, apesar de ter sido um notório xodó de igreja velha, tendo estado a frente da reforma das igrejas de São Benedito e principalmente do Bom Jesus do Saivá, não era lá um homem de muitos ritos. Poucas vezes foi à igreja, quase sempre em celebrações de sétimo dia. Dizia-nos, por outro lado, ser adepto “do lado espiritual da coisa”, ou seja, do espiritismo, esse nosso espiritismo católico-cardecista tão espalhado por aí. Eu nunca conversei a sério com ele sobre isso, embora respeitasse sua crença.
Não acho que existam espíritos ou coisas do gênero. Nossa vida é uma luta contra o nada, contra o vazio. Ou preenchemos esse vazio ou o vazio nos preenche e nos inunda. O vazio é a banalidade da vida, essa vida que vai se escorrendo como um rio rumo ao mar, sem mais sentido que energias cinéticas e potenciais que vão se perdendo ou ganhando na trajetória. Nem mesmo a matéria existe, o que existe é uma profusão de partículas elementares circulando no vazio. Mésons, píons, múons, bósons, e mais nada.
Por que recordar os mortos? Não sei exatamente. O que sei é que a lembrança deles me toca e começo a ficar comovido feito as castanheiras da Amazônia, que choram quando são queimadas. A lembrança de todos é a saudade de um tempo que não volta mais, de um eu que não volta mais. Estou aqui lembrando de coisas e histórias que são minhas, só minhas, de minhas relações com meus mortos queridos.
Sinto-me um tanto ridículo, mas vou até a janela e acendo uma vela. E fico um tempão olhando ela queimar. Lá fora, as arvores e passarinhos nem estão aí pro meu chororô. Tambem não ligo pra eles, e sigo perdendo -perdendo? - um bom tempo pensando em como é parecido – a vela queimando - e a vida, toda ela  inútil, que se esvai.
 Gusano, meu amigo, onde você se enfiou?

2 comentários:

  1. Jeff. Sempre Alerta/Fortunato.

    Em socorro do seu Dodô, repasso-lhe um endereço para ser lido.

    http://filosofiaespiritismo.blogspot.com.br/2011/03/carta-ao-materialismo.html

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    1. não posso nem devo responder por seu Dodô, mas agradeço muito a gentileza, caro Natinho!! Abraços e Sempre alerta!!

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